você que já veio e você que está

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Pessoas - poeminhas carnavalescos

Eu
Tu
Ele
Nós
Vós
Eles
Eu e tu
já não bastamos?
Para que tantas pessoas?

Canelas - poeminhas carnavalescos

Rasguei um pedaço de papel
do bar para
te escrever
Gostei de tuas canelas

Dobrei-o em quatro
Entreguei ao garçom disse
Entregasse a bela
Donzela ali sentada

Multidão: o garçom não te
reconhecera avistara
Mas sim eu.
Pediu-me que te descrevesse
Disse eu apenas

A donzela da bela canela

Ele espantado amedrontado
Reconheceu por meu dedo em
Riste
Estavas no andar de cima

O garçom alcançou-te
Entre bandeja e outra
Atrapalhado entregou-te
O bilhete
Disse ser do cavalheiro
Pintoso
Do andar de baixo

Agradeceste em toda tua
Graça
Pôs-te a ler - lia
cima a baixo
baixo a cima

Olhaste para mim enfim
Lá estava eu brilhando
Os olhos vibrando
As canelas

(No manuscrito isso foi realmente escrito num pedaço rasgado de papel de bar)

Nossos olhos - poeminhas carnavalescos

Meus olhos estranhos olhos (e também os teus) não pararam de te fitar desde os primeiros segundos que te viram como é possível talvez estejam hipnotizados talvez você me tenha encantado mas sempre haverá a possibilidade de tudo não se passar de outrora separadas
Quatro bolas de gude

Norte - poeminhas carnavalescos

O mundo -
disse -
É muito grande ou muito pequeno
Se o tens como grande
Sorte nossa termo-nos encontrado
Se o tens como pequeno
Mesmo assim não desmereçamos a sorte nossa

Afinal de jeito ou outro
Estamos aqui
mesmo que um pouco tortos
Isso - se fores pensar - é quase milagre
quase quase impossível
mas tão-só-quase que estamos aqui.

Possíveis redondos amores tontos
Te amo! Te amo!
Avanço te perco pelo caminho
Volto te busco
E vamos
Embora pelo norte que lá o vento é fraco

Ficaremos bem se estivermos sós
Te quero! Te quero!
Fuja te acho
Sei que queres
me queres
Fujo me perco
Fojes te alcanço
Enquanto corro te vejo ao longe
brincando com folhas sentado
Esboço sorriso me olhas foges
Te acho! Te acho!
Te laço te caço reclamas
Nem ligo
Te calo a boca com beijo
Voltas manso comigo
E vamos
Embora pelo norte que lá o sol é forte

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Bom tom

São quatro da manhã
e chove
Penso em ti e sei que provavelmente
dorme
Com quem é que me aflige;
Comigo é que
não é
Minha cama abriga a mim
E a sua
outra mulher
Choro rios e logo me canso
Pensar dói,
Então eu danço
Com uma taça de vinho do porto
Me balanço
solitária
Saudosa, menina, da infância; saudosa, mulher,
do canalha
Encaro o telefone enquanto espero
tua ligação
Mas se não vem, não me decepciono
Pois sabia aguardá-la
em vão

(continua...)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Destino 2

O ônibus devia ter uns quarenta lugares e, fora o do motorista - que, obviamente, para garantir o movimento do automóvel, deveria ter sempre o seu dono - e o do cobrador, o meu era o único ocupado. Já tinha percorrido dois bairros. Chovia intensamente; as janelas estavam cobertas, todas, por neblina. Eu desenhava coisinhas-sem-sentido-ou-graça com o dedo onde a neblina era mais concentrada, enquanto encarava o nada com o sono de quem está preso no trânsito há horas. Laranjeiras. Ia para Laranjeiras, 570. Ou pelo menos tentaria, se Deus e o tempo me ajudassem. Não estavam ajudando. Recostei a cabeça levemente e, antes que pudesse perceber, caí no sono. Um sono frágil, precocemente interrompido por algum barulho externo. Abri os olhos e percebi alguém correndo em direção ao ônibus - era um homem. Devia ter uns vinte e poucos anos, no máximo. Pele e olhos claros, um boné (meio fora de moda) e uma mochila. Foi só no que reparei. Eu, o motorista, o cobrador, os outros trinta e oito lugares e ele. Agora, trinta e sete. Felizmente. Porque ele era lindo. LIN-DO. De morrer. Lindo mesmo, tipo gente de capa de revista. Olhou-me por três segundos inteirinhos. Olhei também um pouco para ele entre os milésimos dessa eternidade. Os meus olhos, na realidade, oscilavam entre olhá-lo e desviar-se do olhar dele. Timidamente, é lógico, afinal, eu! Sentou-se dois bancos à minha frente e de vez em quando eu podia reparar olhadas de rabo de olho em minha direção. Uma cena como que de filme; natural seria ele me observar, afinal, não era todo dia que algo como aquilo poderia acontecer. Poderíamos ter conversado e nos conhecido e nos tornado amigos e namorados e casados e pais e avós e amantes além-vida, fosse aquilo coisa do destino. Mas, não; eram apenas duas pessoas solitárias indo a Laranjeiras numa noite fria.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Ignore!

As meias furadas dos pés sem sapatos remexiam-se, lentamente, para lá e para cá, enquanto as mãos, ágeis, viravam as páginas, uma a uma, em questão de instantes. As pernas, como que nervosas, balançavam-se com mais pressa do que os olhos liam as linhas. Cada palavra para ele significava um mundo - cada uma palavra, um mundo. E de tantos mundos ele se enchia à cada nova página, que sentia-se quase como que um planeta. Algumas diferenças, porém: o seu sol era negro e a lua era ela. Ele, em vias de certeza, não chorava como um paciente (portador de amor agudo). Não chorava porque sabia-se apenas mais um dentre os milhões, bilhões, trilhões de enfermos internados pela mesma causa no (escuro) hospital do coração - ou, no mínimo, do cérebro restrito ao único pensamento em que se era possível pensar. Havia chovido horrores naquele dia e as poças d'água ocupavam cada milímetro do chão da cidade. À medida em que lia, lia, lia; nela, nela, nela é que pensava. Seria possível que este mal viesse para o bem, ou uma traquinagem do destino o faria, deveras chorar? A dor que se sente, para quem sente é única; para quem assiste é espetáculo; para quem morre é insensível; para quem vive é suportável; para os que amam é mártir; para os que odeiam é amor; para os que viajam é lembrança; para os poetas é inspiração; para quem consola é esperança; para quem esquece é vazio; mas, para quem chora, é dor, apenas. Talvez devesse ele, então, chorar, para sentí-la (a sua dor) somente no limite dela mesma, do essencial. Porque se fosse preciso morrer-se um pouco para viver-se em pleno, qual o mal? Ele não tinha medo do amor; tinha medo é dos amantes. O amor, em si, era algo de maravilhoso - pensava. Era o que, de fato, dava sentido às coisas. E graça. Numa de suas divagações matinais, passou por sua cabeça a seguinte proposição: só é feliz quem é pleno e só é pleno quem é feliz. Mas e daí?