você que já veio e você que está

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Eis Que o Judeu Se Acanha

Nada é tão sofrível quanto a situação de um jovenzinho judeu em véspera de dia vinte e quatro de dezembro. Nada o remete tanto às lembranças do holocausto quanto a experiência desse dia, em que praticamente não é cidadão do mundo em que vive. Nessa data fatídica em que se comemora o aniversário de um jesus cristo em que ele só não acredita porque em tais condições fora criado ou porque crê que, se ele tivesse sido realmente o salvador da eternidade, as coisas não estariam como estão para aquele mendigo, por exemplo. Nada intriga mais um jovenzinho judeu do que a expressão "espírito natalino", sobre a qual ele vive matutando e a qual ele não consegue parar de questionar, meio porque acha engraçada. E lá ele fica. Em sua casa, ouvindo as músicas e as risadas natalinas da vizinhança, enquanto balança solitário o seu whisky e olha para o horizonte. Sozinho, solitário e sem perspectivas de perú.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Casamento

Desde pequena venho possuindo essa inapelável posição de contrariedade ao absurdo final anti-feliz que costumam chamar casamento. E por mais que não desistam de repelir-me com frases do tipo “você ainda vai rir disso” ou “você ainda é muito nova para saber, como eu, que um dia ainda vai rir disso” – babaquices –, eu também, como de costume, tenho a mais absoluta certeza de que nunca irei me render ao matrimônio. Afinal, como a própria expressão, se um pouquinho mais sábia, já diria: não é feliz. É final.
Muito interessante é, para quem observa, assistir à degradação de um relacionamento a partir do momento em que este “evolui” para o passo nupcial. Não sei quem foi que nos veio com esta idéia, mas de fato é uma idéia péssima. Duas pessoas que nasceram em lugares diferentes, famílias diferentes, que possuem hábitos, tiques nervosos diferentes - fora as outras mil e trezentas diferenças que muito provavelmente foram inventadas justamente para separá-las -, definitivamente não podem estar “destinadas” a viver juntas. Dentro de uma casa.


Juntas, dentro de uma casa.


Só a idéia disso já me soa infernal o suficiente para que eu queira evitar somente o assunto por mais pelo menos noventa e sete anos – data oportuna para que não me restem mais bases físicas ou psicológicas para efetivar o ato.
É visivelmente a sentimentos que atribuímos o ato insano do casamento, contudo, é nesse exato ponto que consta o erro: basear nossas vidas dali até o final em aspectos sentimentais é não só louco como besta, afinal para tudo é necessário um, mesmo que pequeno e restrito, uso de Matemática.
Somando as cuecas imundas e espalhadas como pés de guaraná do seu querido marido ao número de vezes que ele preferirá olhar para uma loira mais alta e mais magra do que você em vez de para você ao fazer um daqueles raros passeios pelo singelo-e-quase-nunca-visitado-por-isso-tão-instigante – o que, assim sendo, é perfeitamente perdoável – lugar chamado rua, já temos aí, em termos de vantagem, -7 (menos sete).
E isso tudo ainda parece bobo quando se deve considerar que a “união feliz” precisa, para ser concretizada, passar também pelo Direito. O pior é que você, no fundo no fundo, quer queira quer não, sabe que a quantidade de tempo que você perde assinando papéis no dia mais feliz da sua vida não é nada comparada à que você perde assinando os mesmos papéis no dia do seu divórcio. A diferença é que na primeira situação você ainda podia contar com o apoio do seu amado marido, cujas feições ainda não lhe causavam náuseas.
A separação de bens, que parece ter entrado na moda, é outra coisa que definitivamente vem matando qualquer centímetro dentro de mim que ainda considerava a possibilidade da hipótese de quem sabe um dia vir a me... (não consigo proferir as devidas palavras). O que mais quereria eu – ou qualquer outro individuo do sexo feminino com um mínimo percentual de funcionalidade de escrúpulos – com um marido, que não os seus bens?
De qualquer forma, eu ainda prefiro ter que ir para a escola, para você ver em que nível estamos.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ferino

Olhei-te de baixo a cima
Como que te absorvendo
Negra
A dor até que é bonita
Para quem com os olhos felizes olha
Mas quem é que com olhos os felizes
Vai olhar pro negro? Vai olhar é pro céu
Pro céu azul
Mas mesmo o céu
Azul
Mesmo ele bonito e a mais alta das coisas
Fica negro fica felino
E para ele quem com os olhos de felicidade olha
Negro fica
Ferino fica
Igual

domingo, 6 de dezembro de 2009

A literatura vem andando de skate. E ela não sabe andar.

sábado, 28 de novembro de 2009

O Bom Filho À Casa Torna

Fotos no orkut:
com oito anos: fotos de todos os seus amigos, mãe, pai, cachorro... menos de você
com dez anos: você fazendo sinais estranhos com a mão (hang lose) com um boné da ripcurl
com doze anos: você e todas as suas miguxaxxx de vestidos de malha com lantejoulas, bolsinhas de mão e saltinhos médios meio perto meio longe dos meninos da sua série, que estão de terno porque estão fazendo barmitzvá
com quatorze anos: você no shopping leblon
com dezesseis anos: você e mais umas duas amigas meio bêbadas dançando em algum lugar como a icy para "maiores" (evidentemente menores) de idade
com dezoito anos: você no volante sob o seguinte contexto: "dando carona para o amigo fudido sem grana pra comprar carro"
com vinte anos: você e novecentos amigos da FACUL tomando uma CERVA no PIRES
com vinte e dois anos: sem tempo pra postar fotos no orkut
com vinte e quatro anos: você e seus novecentos amigos na formatura da FACUL
com vinte e seis anos: você com uma pasta na mão e roupa formal, todo empolgadão pra ir trabalhar
com vinte e oito anos: você com a namorada que arrumou no trabalho
com trinta anos: você na pelada de domingo com dez dos antigos novecentos amigos
com trinta e dois anos: você no seu OHSHITMOTHERFUCKERNOWAY! casamento
com trinta e quatro anos: fotos de todos os seus filhos, mulher, sobrinhos, cunhados, primos, cachorro... menos de você
com trinta e seis anos: você e somente um dos antigos novecentos amigos – o único que remanesceu - tomando uma CERVA num bar escroto de velho que ninguém vai, ex. são roque, já com aquele barrigão de chopp que vem com a idade
com trinta e oito anos: você no carro de um dos seus antigos novecentos amigos – o único que remanesceu – porque agora você é o fudido que não tem grana pra comprar carro
com quarenta anos: você mandando um hang lose na porta do cinema do Rio Sul
com quarenta e dois anos: você no sofá de casa assistindo Faustão
com quarenta e quatro anos: você fazendo sinais estranhos com a mão com um boné da aqualung
com quarenta e seis anos: você com cara de puto segurando uma pasta na mão, cansado de trabalhar tanto e não ganhar porra nenhuma
com quarenta e oito anos: você (forçado) e toda a sua família reunidos no sofá para uma foto pro quadro da sala
com cinqüenta anos: fotos dos seus netos fazendo sinais estranhos com as mãos (hang lose) e usando bonés da ripcurl

E a saga continua. Afinal de contas, o orkut também é parâmetro sociocultural.

domingo, 22 de novembro de 2009

Pequenina confusão informacional

Depois dizem que a religião é avessa à tecnologia. E então Deus não fez o homem à prova d'agua?!

sábado, 21 de novembro de 2009

Nos olhos de Joplin estão o luar e as meninas tomando sorvete

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Pessoa dois

Queria que o meu eu falasse
Queria eu silenciar para que meu eu –
Mas não eu; o eu que sou de verdade
O eu que quando morro nasce –
Fada-se

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Magnífico devaneio literário

Sentei-me na sexta feira passada em frente à lareira com os pés quentinhos dentro de uma meia de lã, enquanto segurava meu scotch, que ia bebericando daqui e dacolá. A noite tinha tudo para ser uma daquelas semiperfeitas, não fosse o frio excessivo.
O que me intrigava era como é que eu, literato e conhecedor de tudo que é vocábulo que sou, poderia não saber o significado da bosta daquela palavra. Tinha comprado um livro na semana anterior. Bem interessante, uma delícia de ler, daqueles que você lê trinta páginas corrido e nem percebe. Eis que quando chego na quadragésima oitava me deparo com a palavra mais estranha que já havia visto em quarenta e dois anos inteiros. Logicamente, isso foi me perturbando de uma tal maneira que, quinze minutos depois, eu já havia ido bater na porta da casa do Dr. Sibbers, meu analista. Não que um analista e um dicionário fossem geneticamente parecidos ou, até, uuh, a mesma pessoa/coisa. Na, na. É que Dr. Sibbers lia bastante. Mas o velho também não soube me dar uma resposta, o que me levou a um desespero maior ainda: se nem o Dr. Sibbers sabia o que aquilo significava, deveria mesmo ser alguma coisa muito oculta. Peguei o mais compacto dos meus jatinhos e fui parar imediatamente no Kansas, onde existe a maior Escola literária universal, até onde se sabe. Bati um papo com Harold, o diretor barbudo e, embora tenha ficado meio encabulado, não soube me dizer a solução para a minha dúvida. Ok, agora sim isso era de dar medo. Se Harold que era Harold...! Decidi ir mais além. Júpiter. Não sei quem foi o imbecil que disse que aquilo ali não era mais um planeta. Como não é? É um planeta autenticado. Procurei em todos os livros de todas as bibliotecas nacionais. Nada. Essa palavra não constava. Isso tudo estava prestes a acabar comigo, com o sentido de minha vida e, logo, com a minha vida mesmo. Sem saber se voltava ou não, se ficava ou ia, se chorava ou ria, parei num bar jupteriano e tomei pinga suficiente para não acordar tão cedo. Escorei-me no chão amarelo que parecia calçar todo o planeta, dobrei os braços sob a cabeça e me pus a soluçar, entre gritos desesperados contendo frases como "e agora", "só jesus" e "pro diabo!"
É claro que isso estragou definitivamente a minha noite.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Apresentações - restaurando



Deus que é Deus
Eu não sei quem é!
Como poderia saber quem és, tu?

sábado, 24 de outubro de 2009

Declaro que odeio São Paulo

Isso aqui é sobre como a saudade te invade o corpo

Esse meu amigo me pediu que eu escrevesse alguma coisa. Porque ele queria muitíssimo ler alguma coisa no meu blog. Meses e anos estão se passando e eu ainda não entendi como é que num segundo alguém que morava só uns metros distante de mim foi teletransportado para São Paulo. Eu odeio São Paulo. Eu te odeio, São Paulo, não só porque você é cinza e horrorosa, mas principalmente porque você levou o meu melhor amigo daqui, de perto de mim. A saudade dum namorado que te largou é ruim também, mas é diferente da saudade dum amigo. A saudade do namorado dá no corpo, assim como a saudade dum amigo. Só que a diferença está em que a saudade do namorado passa em tempinho. A saudade do amigo fica pra sempre. Impregnada. É quase uma putaria. Você precisa daquela pessoa, precisa, precisa porque ama e porque estar longe dela te mata um pouquinho todo dia. E é foda. É foda estar longe dum amigo. Inda mais do melhor dos teus amigos. Não o melhor porque é o mais bonito ou porque é o mais inteligente ou porque, no caso desse meu, desenha melhor que todo mundo que você conhece e sabe fazer réplicas de tudo que envolva Harry potter. Melhor, quando eu digo, quer dizer o que, por essência, por um fio de prata maluco ou simplesmente por amor, está preso a você. E agora que ele está longe – ou melhor, não é de agora -parece que me falta um pedaço. Eu sofro. As partes do meu corpo sentem saudade. Não é como se a gente fosse se encontrar uma vez e essa dor passasse. É nessa vez que a gente sente os olhos brilhando meio de choro, meio de felicidade, meio de choro de felicidade e uma porrada de dor. Ou da dor de uma porrada. O importante é que a gente sabe que, no fundo, está vivo. E existem aviões.
Te amo, Leozinho.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Coxinha de Galinha



A omissa
noviça
debaixo da saia de plissa
veste as
roliças coxas
com cintas-
ligas e
vai à missa
cobiça
os homens das moças
enquanto em linguagem castiça
enfeitiça discursa
qual ursa
e no decurso de tal discurso
imposta voz de camurça
e eriça
os homens das moças
os homens das moças
puta, putiça: noviça
postiça

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

[In](efi)ciências Exatas

A vida inteira venho desprezando a matemática e a biologia e a física e a química por dizê-las e pensá-las inúteis a minha existência.
A minha existência inteira, por sua vez, é dedicada ao samba que a tinta da caneta faz no papel, desvendando magicamente todo o arredor de minha mente.
O samba é feito de notas, do grave e do agudo, e pelo samba os ouvidos movem os pés, que levam junto os quadris e a partir daí toda uma seqüência de movimentos se segue, formando o sambar. O samba, porém, necessita não só dos sambistas, mas do sambar e dos sambódromos. O sambódromo é o leito materno do samba. É como a sua casinha.
Para o samba ser samba, é necessário estar inteiro. E sua integridade só se faz se presentes todos os elementos que, por natureza, o constituem. Ou, quanto mais desses elementos, melhor.
Um cérebro é como o samba, ou como qualquer outra coisa integral. Quanto mais elementos a semeá-lo, melhor, mais rico, mais cérebro.
E como posso eu escrever se não conheço um mundo de inutilidades tão inteligentes que só chamo de inutilidades porque não possuo habilidade o suficiente para acompanhá-las, pela minha própria falta de inteligência?
A vida inteira tenho pensado desprezar a matemática e a biologia e a física e a química, quando, na verdade, são elas que vêm me desprezando.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Os blogs que aparecem aqui do lado - parte 1

Estive pensando e resolvi compilar de forma singela e nada confiável a minha descrição própria dos blogs alheios que acompanho. Cheguei às seguintes conclusões:

BLOG
1 - Do Pellegrino: é como taxi em dia de chuva (nada a ver com aquilo de “quando chove, escassa”, sobre amigos falsos) – vem um por ano, mas quando vem, é maravilhoso.

2 - Do Rodrigo: kafka, Shakespeare, Voltaire, jorge amado, machado de Assis, Fernando Sabino, Paulo coelho, Gabriel Garcia Marquez, Tchekov, Ibsen, Nelson Rodrigues, Mário Quintana, Guy de Maupassant, Eça de Queiroz, Veríssimo e Dias Gomes: são todos conhecidamente excelentes escritores. E todos eles têm inveja do blog do Rodrigo.

3 - Do Pablo: parece o blog uma menininha de 14 anos apaixonada. É por isso que eu amo (eu sou uma menininha de14 anos apaixonada. Isso é mentira. Ta, é meio verdade. Na verdade, é dois terços verdade. Eu sou uma menininha e sou apaixonada. Mas não tenho 14 anos).

3 - Do Daniel (Gafa, Mano Belma, Juquinha, Bilubilubilubilutetéia): é como a vida de um psicólogo. Se voce não esta satisfeito com os seus problemas, ele te conta os dele e os do mundo inteiro (recados para a avó Nina, notícias do Mundo Bizarro, como morte de cachorro na Nova Zelândia, problemas gramaticais de outrem, documentação de más experiências ligadas ao sexo oposto e um texto chamado “bolo” que dispensa outros exemplos, comentários ou qualquer outro caractere)

4 - Do Pig: Um parnasiano, só que cheio de sentimento e muito mais inteligente. Tão inteligente que a gente costuma passar um tempinho tentando entender.

5 - Da Cris e da, relativamente nova, amiguinha Nanda: um ‘Confissões das mulheres de trinta’, com toda a sabedoria dos quarenta. Opa. Dos vinte e dois.

(breve, mais)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Deusomem

Nos cantos todos do país, de cidade em cidade, o gosto dele era passear e ir comendo as meninas.
Entre virgens e putas, das mais astutas às mais inocentemente santas. Sem ou com aval. Por mal ou por bem.
As meninas emprenhando iam.
E ele viajava. Viajava ele pra onde já ia sem contar com o emprenhamento das moças. Ele não contava mesmo, não ia contar, nunca contava.
Chegava ao próximo lugar e já ia emprenhando mais três. Depois se mudava.
Ele não ficava pra conhecer a cara da criança.
Isso porque podia doer demais ou pesar no bolso.
Com o bolso era pras próprias meninas se preocuparem. Ele com isso tinha nada.
Ia seguindo só, somente.
De bairro em bairro, cidade em cidade, estado em estado plantando semente.
As mães iam algumas nem ligando, outras se emputecendo e mandando telegramas.
Mas telegrama era caro que só. Telegrama custa por palavra. Na tentativa de baratear ficava alguma coisa desse jeito:
MENINO NASCEU VOCÊ PAI.
Ele entendia de qualquer jeito mais barato.
1 – O menino que nasceu é o seu pai.
2 – Menino, você nasceu, pai.
3 – O pai do menino que é você nasceu.
O homem tinha tantos filhos que, se pegasse pra criar, ia criar o mundo.
O homem, se não se mudasse tanto, ia ser Deus.

domingo, 4 de outubro de 2009

nasci com fome

a poesia
é a forma inspirada
que toma
o vandalismo

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Da minha fixação por ovos

ovo mexido
é o destino mais triste
dum ovo
a colher remexe
e mexe de novo
até virar papa
O ovo

o ovo estrelado
é bonito que só
e o menos trabalhado
você larga ele lá
e só
ele vira
estrelado

mais triste é o homem
que come o ovo
sabendo comer
um pintinho não nato
mas também dá sorriso
pois dava dó mesmo
era se estivesse comendo
o pintinho depois de nascido

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Rica e rara

Olhei-te pela janela
Não mais em mim
Tu:
Já nela

A dor fosca que me causaste
Insisto em senti-la
Brilho, já tens o dela
Cujo dente em sorriso cintila

Não confunda o simples com o simplório

Eu estive pensando sobre isso: os poetas passam a vida a pesquisar dentro de si mesmos algo de mágico para ser dito e escrito, algo de novo e impensado, a filosofia pura, em sua essência, a coisa mais bonita e mais incrível que um leitor encontrará dentre tudo o que ler. Perdidos nessa busca interminável pelo impossível, deixam de notar que não existe nada mais poético do que a palavra "ovo"

sábado, 26 de setembro de 2009

Rio 2000 (Poderia acontecer ali ou) aqui

Nos ônibus existem bastantes dessas coisas. É como quando você se pega sentado olhando para o nada através do vidro da janela, chacoalhando de quando em vez, numa curva ou noutra.
Costumam entrar mais pessoas do que sair. Isso certamente incomoda menos quando você é uma das pessoas que está entrando do que quando é uma das que já estava lá dentro.
Foi num desses fluxos contínuos que entrou uma moça de nariz fino, pele branca e olhos castanhos claros. Uma aparência um tanto burguesa. Mas eu só reparei nisso porque ela se sentou em frente ao vidro que separa os assentos preferenciais dos comuns, de modo que dava para ver o seu rosto mesmo que estivesse de costas. Esse era um de meus dias mais desleixados, o que me suscitou certa vergonha. Eu estava de chinelos, bermuda e uma blusa um tanto quanto surrada. Também me pegara no mesmo dia um mau humor expressivo. Olhei-me pelo reflexo ao meu lado, na janela, e percebi que estava um lixo. Eu sempre alimentei a estranha pressão interna sobre mim mesmo em relação a prestar satisfações a estranhos.
Ela olhou para mim algumas dezenas de vezes. Ora para mim, ora para frente. Nunca para nenhuma outra coisa.
Fiquei imaginando o que poderia ser: ou eu era totalmente irresistível, ou ela tinha TOC.
À medida que as pessoas iam passando pela roleta e caminhando até algum banco vago, ela acompanhava-as com a visão – mas somente para disfarçar, afinal, acabava sempre lançando olhares a mim.
Eu era totalmente irresistível.
A única diferença entre olhares fascinados genéricos e o dela era o fato das suas sobrancelhas se levantarem de uma forma meio esquisita e de seus olhos se esbugalharem um pouco, quando me viam.
Mas a paixão pode tomar diversas formas, mesmo essas, meio esquisitas.
Ela trocou de lugar. Sentou-se do outro lado do ônibus. Baixou a cabeça um pouco. Não era mais possível ver seus olhos ou para o que olhava. Ela, porém, continuava virando-se para trás com certa freqüência. Com a mesma expressão assustada. O Rio de Janeiro costuma ser um bom lugar para uma mulher olhar esquisito para um homem mal vestido e mal encarado.
Ou eu era totalmente irresistível ou ela estava pensando que eu era um assaltante.
Isso me deixou confuso. Ela me admirava, era obsessiva compulsiva ou estava com medo de ser assaltada?
Estranho era, para mim, pensar desse jeito, porque afinal eu sou uma pessoa instruída, de estudo, de posição e de família. Assaltar não se encaixava em meus horários, tampouco em minhas ambições pessoais.
Entretanto, ela me olhava de uma forma tão continua, tão padecedora. Quase uma súplica. Às vezes nós nos percebemos obrigados a nos render a uma situação que não havíamos planejado, ou para a qual não nos tínhamos preparado psicológica ou fisicamente.
Resolvi que o melhor era deixar que a natureza agisse por si própria e que não interrompêssemos o seu fluxo ou nos freássemos contra a sua vontade. Afinal, nós, enquanto criaturas divinas, para nada existimos senão para servir aos Seus mandamentos.
Levantei-me, caminhei até ela e disse da maneira mais desinibida que consegui:
- Isso é um assalto.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

De Platões e simpatizantes


De ti
Só amei
A parte que
Não conheci

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Ao desespero

Outrora quando usava
De maneiras e modos para
Escolher palavra
A escolhida tinha que ser tão doce que
Não ferisse
Palavra menos nua e mais crua se
Não quisesse
Magoar a ti
E não queria
Por isso eu dizia
Menos o que pensava e mais aquilo que um dia
Bem ou mal cessa
Não fosse
A pressa da compressa
De quem comprime
Pois faz promessa
De adoecer
Se eu não ceder
E desvirar de costas
E seu prometer
É não sair das fossas
E apesar
De pouco eu me lixar
Espero que compreender possas:
Dói
Dói no peito dum antigo amante
Quando vê que agora errante
É aquele antigo amado
Sente então no peito o fardo
De quem mata sem a faca
Mas atira
Mesmo fraca
Ou sem mira
E não se põe
Mais a dormir
Pois se vira
A noite toda
Procurando posição
Que não desperte o pesadelo
Desperte do pesadelo
Pesado o elo
Que se faz
Quando alguém fugaz
Com ou sem esmero -
Sem, lembrando, só tendo talento -
Te traz
Ao desespero

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

"Você precisa de ajuda, Yasmin"

Grita:

- Eu te amo.

Tapa a própria boca com qualquer mão. Olha para um lado e vê três amigas de braços dados, uma madame de sacola no ombro e umas outras nove mil pessoas. Resolve não olhar para o outro.

- Eu te amo, porra.

Pensa ‘que merda’. Pensa ‘o que, caralho, eu estou fazendo?’. Pensa ‘eu te amo eu te amo eu te amo’. Grita mais alto:

- Eu te amo!

Pensa ‘ok’. Tapa a própria boca com as duas mãos. Tenta correr para a direita. A senhorinha que assistia emocionada à cena dá-lhe uma bengalada empurrando-o de volta para o topo do banco. Esquiva-se. Tenta correr para a esquerda. Tropeça em três bebês e uma babá. Volta à posição inicial sem nenhum querer. Chega enroscado. Vai-se desembrulhando. Quando vê:

- Repete.

Pensa ‘puta que me pariu’. Pensa ‘coitada de mamãe’. Pensa ‘puto, Deus, seu puto’. Pensa ‘eu te amo eu te amo eu te amo’. Grita mais alto ainda:

- Eu te amo!!

Esconde o pênis. Olha para a mão que esconde o pênis. Sente uma bengalada nas costas e é empurrado à frente. É obrigado a levantar a cabeça. Encara Rosamaria.

- Repete, eu pedi.

Não diz nada. Olha para a barriga. Tenta se comunicar com o estômago. Nada. Fecha os olhos. Olha para dentro de si. Muita coisa. Não está em condições de escolher palavras. Não escolhe. Fica calado.

- Hein.

Olha em volta. As nove mil e outras pessoas gemem o mais alto que dá “repete repete repete”. Pensa ‘que foi que eu fiz’. Olha para Rosamaria. Diz que há flores saindo de seus ouvidos. Todos param para ver. Foge.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

part-ida


em vez de chorar você ri
você ri pois não chora ou não chora pois ri
seja lá como for você ri

ele vai você olha
dele cai lagrima você nem vê vira você anda
ele ri de nervoso
você nervosa você ri de novo

ele para anda um pouco mais e para
você anda para um pouco mais e para
de olhar pra trás
ele vira a cabeça você também

só que depois pois assim
um não sabe d’outro
assim, pois, é bom

que mortes tranqüilas os adeus sem despedidas!

no agora
só o que so(m)bra
é a tua solidão
sentada ao lado
da so(m)bra dele

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Existandário pré-adolescente

Eu sabia que já estava tarde. E que isso era coisa de puta. Estava tarde, isso era coisa de puta, eu queria ir assim mesmo, eu fui. Coloquei o sutiã por baixo da blusa do pijama, troquei de calça, enfiei um chinelo no pé e fui. Ir largada é bom. Parece que você ta cagando. Parecer que você ta cagando é ótimo. Mas não sem antes passar um blush e uma pitada de pó na espinha que eu tenho em cima do queixo que já é quase da família. Aí tá, fui mesmo agora. Rodei a chave devagarinho, que se a minha mãe acordasse eu tava totalmente fudida. Nisso, o meu coração lá, né? Tipo, quase uma rave, para a qual ele resolveu convidar a minha barriga também. Fofo. Até o outro lado da rua eu fui saltitando em silêncio – se eu já não estava mais em casa não estava importando muito. Chovendo, né. Chovendo pra caralho – porra, que merda, juro cara, eu sou uma retardada mesmo, por que eu faço essas coisas? Super desnecessário. Eu viveria muito bem sem essa. Eu podia muito bem estar dormindo fofinha na minha cama. Eu devia era ter. Ok. Cheguei. Era rápido mesmo, passos, só. Toquei a campainha, boa noite. Noite não, dia. Dia, não. Noite, que ainda não dormi, então é noite, né moço? Céus. Que trash. Então, eu vou pra casa do Fred. É, EU FUI PRA CASA DO FRED, A MESMA CASA EM QUE EU DISSE ANTEONTEM QUE NUNCA MAIS PISARIA, O MESMO FRED QUE EU DISSE ANTEONTEM QUE NUNCA MAIS PEGARIA. Qual o seu nome, minha filha? O porteiro já zumbi, tadinho. Também, né, três horas da manhã lá é hora de se aparecer em casa de homem? Aliás, de qualquer pessoa. Mas, de homem! Ai, meu Deus, que putaria. Beatriz, moço. Diz Bia. Bia rima com putaria. Que rima com corria. Que era isso que eu devia estar fazendo agora. Ta bom, menina, pode subir. Ok. Ok. Ok. Ok. Ah, ok, obrigada! Agora eu tenho que subir. Ta ok. Eu tenho total controle sobre o ângulo de trezentos e sessenta graus a minha volta. Eu sou a única e soberana dona de mim mesma, oi Fred, tudo bem? Shit. Carráleo. Fudió, fudió, não, não senhora, a senhora é uma adolescente completamente madura e crescida cujos peitos são enormes e por isso nada pode dar errado. Não me pergunte qual a relação do tamanho dos meus peitos com a funcionalidade das coisas, mas para alguma porra estes dois deviam servir, e ESSE ERA O MOMENTO. O Fred super foi simpático, super me chamou pro quarto dele e eu super não sabia o que eu tava fazendo ali. Você é linda. É, Fred, você quer me comer, eu sei, pode pular isso. É, Fred, você comentou. Não, Bia, sério, você é muito gata. Ta, beleza, obrigada. Aí ele colocou a mão na minha perna e tal. Eu tensa, né. Nunca tinha ido para a casa de um garoto tipo ÀS TRÊS DA MANHÃ. Alôou, cúmulo da putaria. Aí ta, beleza, normalzão, a gente se pegou, falou umas coisas meio podres hahahaha, mas tipo, engraçadonas, e aí ta, eu dei. Eu dei pro Fred. Ah, dei, né, gente. Foi iraaado. Me senti completa, plena, sabe? Total uma outra pessoa. Eu nunca me senti tão adulta, parecia que eu tinha crescido, sei lá, uns trinta anos.

Mas a mamãe super não pode saber.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Os assassinatos da bonita Londres

Na bonita Londres, quase todo o frio é possível. E Jackhile sabia disso.

Jackhile adorava charutos de framboesa. Isso é algo de importante.

Todo dia de manhã, Jackhile dava três voltas para a esquerda em seu quarto e agachava quinze vezes, tocando assim as mãos no chão de forma que alongasse seus glúteos. Ela abria o armário, escolhia a sua roupa, que era quase sempre um casaco três quartos de alguma cor que doesse bastante os olhos. Calçava o par de sapatos ideal e fazia da mesma forma com a peruca, que haveria de ser colorida identicamente à veste.
Geralmente colocava os pés para fora do apartamento magnificamente decorado por Grettha Louz, a mais famosa decoradora londrina, e sentia frio. Mas não voltava para colocar meias-calças, afinal, ela não tinha tempo, nunca. Em vez disso, para aquecer-se, acendia o seu charuto preferido enquanto andava apressadamente: não que isso ficasse feio, ela o fazia com uma elegância impar. Alias, vale lembrar que Jackhile era, muito provavelmente, a mulher mais bonita de toda Londres. Era impossível não reparar em seus cabelos e olhos negros que saltavam, como em relevo, desvencilhando-se de toda a alvura da face. E, logicamente, não podemos esquecer-nos de citar o carisma da mulher, que era algo de fato invejável. Enquanto ela andava, acompanhada pelo balançar de seus vastos e cartesianos quadris, aproximava-se cada vez mais da Freddie’s, coisa que provocaria uma certa reviravolta em seu estômago, não fosse a habilidade de lidar com situações que pareceriam dificílimas para seres humanos genéricos com que ela nascera. Talvez devamos ambientar a Freddie’s para que seja possível a compreensão de pelo menos um terço do drama. A Freddie’s, com esse nome de loja de roupas de esporte ou lanchonete cool da alta burguesia inglesa, era um necrotério. Jackhile freqüentara o local todos os dias durante quatro meses, religiosamente, chegando pelo mais cedo da manhã e deixando-o à tardinha, naquele meio tempo em que ainda não escureceu mas já não está claro. Seria interessante divulgar também a informação de que Jackhile tratava-se da mais renomada detetive da cidade londrina. A primeira vez em que ela pisou com os seus chiquérrimos sapatos no lugar aconteceu porque a procurou Donavan, homem dos traços grosseiros e marcantes que desconfiava que sua mulher estivesse tendo um caso com o caseiro de sua mansão. Sim, é verdade que para descobrir que a sua mulher está tendo um caso com o caseiro basta prensá-lo na parede e pressionar o seu pescoço suficientemente forte de forma que ele confesse o adultério; não que Donavan não tivesse a base física necessária para isso, mas ele possuía diferentes intenções além desta. Basicamente na primeira vez em que abriu a boca para falar, a detetive pôde perceber alguns sinais um tanto quanto inusitados a respeito daquela figura, entre um e outro flerte. No final do encontro, todos os livros sobre física quântica que Jackhile lia como passatempo e os porta-retratos emoldurando fotos em que ela sempre aparecia sozinha e fatal encontravam-se desleixadamente jogados no chão, pois a mesa estava demasiadamente ocupada apoiando os corpos dos dois, que, a essa altura, faziam o sexo mais agressivo e louco de suas vidas. Jackhile não tinha o costume de se prestar a esse tipo de papel, mas a esse homem, em especial, ela não pestanejou antes de ceder à vontade de se emprestar por uns dez minutos. Como pensava que seria. Mas não foi, ou foi, só que por algo mais do que apenas uma dezena de minutos. A estupenda fèmme fatale que representava Jackhile rendeu-se ao mal mais necessário que paira sobre a face da terra: os encantos (ou, no caso, desencantos) de um homem de pulso. Ele a chamava puxando pelos cabelos, beijava-a rápida e fortemente, segurava-a pelo braço como uma mãe raivosa brigando com o seu filho. Já era tarde para que Jackhile se livrasse de Donavan quando percebeu que ele se tratava de um psicopata, o que ocorreu quando ele assassinou sua mulher e o caseiro, sem ter certeza alguma de que a traição fosse verdade. Jackhile viu-se pela primeira vez sem saber o que fazer. A relação dos dois já havia avançado o suficiente para que ele se conformasse caso ela quisesse a separação sem dar motivos convincentes, afinal, ela temia por sua vida. Jackhile não encontrou outro jeito a sair desta encruzilhada a não ser cometer um homicídio contra o ex-cliente que tomara proporções, as mais sórdidas, em sua vida. O corpo, ela queimara no quintal da casa que pertencera a uma tia já morta, no interior, e que ela usava como depósito de evidências. Perceba que essas heranças acabam tendo funcionalidade. Fez isto entre uma lágrima de pavor e um suspiro de alívio. Tudo com o cuidado necessário para que não fosse suja a camurça do Chanel amarelo que ela usava no dia do assassinato. Nunca houve suspeitas acerca da morte de Donavan. Até porque ele não deixara ninguém nesta esfera para sentir a sua falta. Jackhile precisou comparecer ao necrotério para deixar as cinzas, alegando tê-las encontrado em um banco de praça. E ia até a Freddie’s, rezar, religiosamente, todos os dias, durante quatro meses, chegando pelo mais cedo da manhã e deixando-a à tardinha. O que o cliente faz com a pessoa de quem suspeita não é, em nenhuma instancia e sob nenhuma hipótese, responsabilidade do detetive. Tampouco o que o detetive faz com o cliente.

sábado, 22 de agosto de 2009

fera

me matarei de abrir e fechar olhos até q chore
teu lábio beijará meu cabelo
até q namorem
minha unha q arranha tua cintura
tira teu cinto meu dedo deixa as pernas tuas nuas
enroscam as pernas minhas nas tuas as duas são uma
sós de momento estão os corpos
enlaçam-se rumo a copos
e copos e copos e copos
e copos e copos
e copos
as mãos q amaciam arrasam destroem
as mesmas q amam ABOLEM
as mesmas do toque DEVASSO
são fruto de 1 só embalo -
e quatro braços
falsa carícia sutil q mascara
a fera q há entre os dedos, devora,
engana por 01 ou 90 segundos
a fúria q cospe no agora
no agora momento de uivar
o fazer, q se fez, se desfez, e se foi
o autor terminou d’a história contar
o ator terminou de fingir e se foi.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Rivaldo saia desse lago


Eu disse uma, disse duas, disse três vezes:
- Rivaldo, saia desse lago.

O menino não saia, o menino deu pra se enfiar no lago e não sair mais, agora. Ele está com essa cisma. Outro dia chegou em casa com uma asa entre os dentes.
Eu disse:
- O que é isso, menino?
O menino me disse na maior naturalidade:
- Asa de mosca, mamãe.
- Asa de mosca, ô menino? Foi isso mesmo que eu ouvi, o que você falou? Deixe eu ver isso cá. Virgem santa. É asa e é de mosca mesmo. Mas tu não tem nojo não, hein?
- A mãe tem nojo de rapadura?
- Rapadura é um negócio, asa de mosca é outro. Outro negócio bastante do nojento.
- Mas a mãe, se tivesse nojo de rapadura, comia? Não comia. Eu se tivesse nojo mosca, não comia. Não tenho, por isso como.
- Mas o que está aí é a asa! Se fosse a mosca eu entendia. Mas a asa?
- É que a asa ficou presa no dente. A mosca mesmo eu comi, já.
- Comeste a mosca?!
- A mãe não disse que entendia?
- Entendia se estivesse de molecagem! E se agora isso dá náusea?
- Dá não.
- Como é que tu sabe, ô menino?
- Que eu já comi muito disso.
- Como é que é?
- Comi, ué.
- Virgem santa! A senhora me traduza! Se isso for mensagem de Deus, a senhora me traduza! Que estou prestes a um desmaio!
- A mãe vai desmaiar? É providente eu já ir chamando a ambulância?
- Está doidinho para ver tua mãe entrevada numa cama de hospital, não é, seu moleque?
-Melhor que ver a mãe mortinha no chão!
- Como é que é?
- Que se eu chamo agora e a mãe ainda não desmaiou, a ambulância chegando em dez minutos, dá tempo de ela já ter desmaiado e não demora tanto a ponto de já ter morrido!
- É uma boa matemática. Ligue aí. Espere, Rivaldo!
- Mais um bocado? A mãe ainda não está vendo tudo branco?
- Pare de lezeira, menino retardado. Vá escovar os dentes que está com bafo de mosca, e, depois que acabar, você vai escrever vinte e sete vezes no papel que não vai comer mais moscas.
- Escrever que não vou comer mais moscas?
- Pois sim.
- E no que isso vai ter adianto, mãe?
- Que assim tu vai aprender o negócio.
- Vou aprender a escrever, mas comer, eu vou continuar comendo. Eu vou é arrumar uma tendinite. Vou ter que ir para o hospital e a conta quem terá que pagar será a senhora minha mãe.
- Ah é, mesmo, engraçadinho? E quem foi que disse isso?
- Copiei de ninguém não.
- Como é que é?
- Eu é que disse mesmo.
- Pois eu digo que não vai a hospital nenhum. E que se for, eu não dou um centavo, nem entro...
- Isso não vai ter como, mãe.
- E por que é isso?
- Porque eu tenho doze anos. Se eu entro no hospital sem mãe, perguntam cadê a mãe, se eu minto e digo que não tenho mãe, paro num juizado de menores.
- E ainda não foi escovar o dente por causa de quê?
- Por causa da senhora minha mãe que está conversando comigo.
- Em falar nisso, acho bom dizer logo para o seu pai que não é mais preciso comprar de comer para você. Que agora o seu negócio é mosca.
- Obrigado, mãe.
- Obrigado?
- Foi isso que eu falei, foi não?
- Obrigado pelo quê? Menino agora agradece castigo?
- Castigo por causa de quê?
- Ouviu que agora só vai poder comer mosca não?
- Se não ouvi!
- E não está deprimido? Vai passar fome, menino. Fica deprimido.
- Mosca é suprimento. Deixa passar fome não. E é uma gostosura, é crocante por fora e macia por dentro, a combinação perfeita de sabores, devia era ser a próxima tendência culinária.
- E é bom assim isso aí, mesmo, é?
- Se é! E muito nutritivo.
- De certo isto avalora.
- Valoriza, mãe.
- Pois foi o que eu disse, avaloriza.
- E ainda por cima diz que faz bem pro cabelo.
- Pro cabelo, é?
- Diz que é melhor que babosa.
- Diz, é?
- E que as unhas não quebram mas nem se a gente quiser cortar.
- Fica forte assim, é?
- Ô, se fica!
- E nesse lago aí que você se enfia tem bastante mosca, é?
- Se tem!
- E os sapos não ficam danados de você roubar as moscas deles, não?
- Ficam nada. Tem mosca pra todo mundo.
- E tem pra mim, tem?

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Podemos conversar ou Lápis de cera

- Podemos conversar?

- Malditos de nós que, como primeiro erro, fomos inventar de nos comunicar através da fala. Isso, cá entre nós – essas conversas – são um inferno. Entendi quando me disseste ‘tchau’. Ouvi com calma, ainda que tremessem-me as pernas de modo a quase não me permitirem a permanência sobre os pés. E me doía por dentro tanto quanto a boca minha não poderia pronunciar nenhuma palavra, fazendo o meu cérebro temer que este efeito se prolongasse para sempre. Isso seria trágico, afinal, eu sempre adorei falar. Eu simplesmente não conseguia, era mais forte do que eu, o que não era difícil, sendo ou estando eu tão fraca. E francamente, eu não creio que você tenha errado. Peço desculpas pelo tempo em que não compreendi os seus motivos. Agora os compreendo inteiramente. Espero que me olhes ainda com os olhos de antes, os sutis e leves olhos que me olhavam com um brilho de ternura, que eu nunca vi coisa igual. Sou honesta quando digo que te amo, e mesmo que não seja da forma que amei um dia, isso é só porque o tempo se encarrega de desfazer esses sentimentos a toda hora, mesmo. Inda bem, não é? É natural, nada pessoal. Mas se continuássemos andando por aí de mãos dadas, o meu sentimento por ti certamente ainda perduraria. E por muito tempo, anos, quem sabe. Infeliz do destino, se é que ele existe, com essa cisma de interromper. Infelizes de nós - não digo eu e você, mas nós - humanos, que nos permitimos negligenciar a beleza do sentimento que nos bate a porta: o amor. Fechamos os olhos para a sua existência, como que ele fosse voltar duas ou três semanas depois. Como que pudéssemos dar-lhe férias, com a certeza de ele retornaria intacto, bonito da mesma forma, pleno como outrora. Mas não é assim. É pura ilusão acharmos que dessa forma, também, conseguiremos ser mais felizes. Babaquice, eu diria. É impressionantemente burro de nossa parte – mais uma vez, generalizo em torno dos humanos. Malditos de nós que, como primeiro erro, fomos inventar de nos comunicar através da fala. Tudo seria tão mais fácil através de lápis de cera! Imagina, tu ias desenhar dois bonecos palito cor de rosa, tá?, um de saia e laço na cabeça e um peladinho, que seriam ela e você, respectivamente. Próximos um do outro o suficiente para que desse a entender que aquilo era um casal. E aí você pegaria o lápis preto e desenharia um terceiro boneco, também de saia, mas sem laço algum no cabelo, cuja posição fosse algo semelhante a um ataque aos dois primeiros. E isso seria a sua belíssima representação de como você não me quer mais e está total e completamente me dando um pé na bunda! Mas não seria mesmo maravilhoso? Eu, neste momento, entenderia e sairia andando. Triste ou não, puta ou não, tanto faria, eu não saberia reclamar mesmo. O máximo que talvez e, muito talvez, eu fizesse, seria desenhar um coração vermelho entre o segundo e o terceiro bonecos e rabiscar um xis no primeiro. Mas também não adiantaria, já que você rasgaria o meu desenho. E eu me sentiria o mesmo lixo que me senti quando tu me disseste tchau. Pensando bem, acho que não ia adiantar muita coisa. Podemos conversar.

domingo, 16 de agosto de 2009

Pequena filosofia aquariana

É tempo dos olhos fecharem ao sol
É era de aquário
As roupas formigam procuram saída
O livre do rosto passeia no seio
O bom é que o vento nos venta para lá
Bagunça-me a veste enquanto caminho
O caminho tu não te preocupes com ele
É rosa
Na era de antes roxa como era
Não era possível viver de sorriso
Não era possível sorrir de viver
Só de viver e de nada além, simples
Que isso é de quando em vez bom
O bom é que quando uma vez
Não cansa
E vez em quando três
Mês em mês o sorriso se esquiva
Todo o amor se degrada e agora
Lembramo-nos sós como em fato
Nós somos
É pouco pelo tempo e pouco pelos
Ares que arrepiam os pêlos
As vezes que julgamos beijos, selos
Às vezes a vida nos corta os cabelos
Tirando de nós a força de sermos
Quem so-nha-mos

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Bolo de noiva ou O atrasado

Observação: há duas noites atrás, sonhei que visitava o blog de uma amiga minha e que nele lia o texto mais genial que eu já havia lido em toda a minha vida. Foi bem esquisito, mas, quando acordei, eu me lembrava de muito do texto, do título e ainda guardava na memória, agora consciente, cada ceninha que em sonho eu tinha visualizado. Bizarro, né? Achei interessante postar o texto, ainda que não seja de nem um décimo da genialidade do "original".
Se chama Bolo de noiva ou O atrasado.

Eu gostaria que ele assumisse uma posição digna pelo menos uma vez na vida. Que assumisse um compromisso e que honrasse com ele. Que. Que. Coisa mesmo de homem, sabe?
Ele não conseguiria.
Marcamos no café.

- Me espere no café anexo ao Clube Militar, minha querida.
- Espero, mas a que horas?
- Não sei.
- Quer que então eu chegue pela manhã e te espere o dia todo?
Ele não era possível. O tom aqui seria sarcástico, não fosse a minha real submissão desesperada.
- Ao meio dia está bom?

Ao meio dia estaria ótimo, caso ele tivesse aparecido ao meio dia.
Ele sempre quis ter filhos.
Eu nunca quis ter filhos.
Filhos para nós representariam um enorme problema.
Quando eu estivesse grávida, tudo seria maravilhoso, ele me encheria de mimos, presentes, beijos e atenções. Quando, porém, o bebê nascesse ele nem perceberia a minha existência. E eu não agüentaria isso.
Eu não agüentaria o fato de ter que dividir o amor dele com mais alguém.
Ninguém.

Ao primeiro minuto depois do meio dia eu já havia ligado umas quinhentas e vinte vezes para o celular dele que, como de costume, estava fora de área. Saí do café enfurecida, com algumas lágrimas no rosto rubro de ódio, trocando as pernas rápida e desengonçadamente.
Abri minha bolsinha de mão e alcancei a caixa de comprimidos de prata. Num ímpeto violentíssimo, tomei quatro comprimidos. Aquilo não foi o suficiente para me matar – eu não daria a ele esse gosto -, até porque não era a intenção.
Apenas enlouqueci. Eu não sei se esse efeito é comum. Mas, de fato, comigo aconteceu.

Algumas horas passaram-se. Eu, trancada em um banheiro do vestiário do clube. Completamente fora de mim. Não que eu dentro de mim fosse qualquer coisa melhor. Vestida de noiva. Batidas desesperadas à porta. Surrealmente fortes. Um pouco mais fortes e a quebrariam.

- É você? Abra!
- Os meninos. Você precisa arranjar lírios.
- Como? Abra a porta!
- Lírios. Não se esqueça, é muito importante.
- Do que você está falando? Está maluca?
- São parte fundamental do casamento! E você se atrasou por quê?
- Casamento? Ora, pois...
- Pois, pois, pois, pois, pois! Estou cansada, vou dormir. Dorme, neném do meu coração. Eu gosto de ninar a mim mesma. Você poderia fazer isso às vezes.
- Mas do que é que...
- Querido, me escute. Os meninos. Os meninos serão lindos. Mas não antes dos lírios.
- Meu Deus! Alguém socorra! Alguém, aqui, ajuda! A mulher está completamente louca.
- Olha só como é engraçado. Tudo – eu disse t u d o -, tudo poderia ser evitado, caso você tivesse chegado ao meio dia. Mas do que um meio dia é capaz, han?
- Eu cheguei apenas dez minutos atrasado!
- Você não ia vir. Você só veio porque descobriu que eu tinha fugido para Cuba.
- Cuba? Ai, minha santa...
- E o casamento?
- Bem, eu não sei, estou muito confuso, você quer se casar?
- Ah, se quero! E então eu não te amo mais do que tudo na minha vidinha?
- Então, tudo bem. Mas antes saia daí.
- Mas antes os lírios! Traga-os até mim. Eu não poderei oficializar o casório até que tenha em mãos os meus lindos lírios. Mas não podem ser lindos demais. Tem que ser apenas bem bonitos. Porque se lindos, ofuscarão a beleza dos meninos.
- E que meninos são esses? Você não quer abrir...?
- Os nossos filhos, ora, que meninos!
- Jura? Você, meu amor, você fala sério?
- Falo transparente! Quero te dar lindos dois.
- Ah, mas como isso é maravilhoso! É a mulher da minha vida! Vamos ser felizes para sempre, meu amor. Agora é hora de sair daí, que eu não me agüento de felicidade!
- Vá buscar os meus lírios.

Ele partiu em busca de lírios, pois havia enfim compreendido que de lá eu não sairia nem à força, a menos que me dessem os meus lírios. Obsessão besta de quem está ou é doido da cabeça. Ele queria os filhos, o casamento. Ele queria a mim. Queria nada! Tudo mentira bem contada! A mim ele só enganara, como sempre. Desonrando horários, atrasando-se. Atrasava-se mais do que à compromissos. Atrasava-se à minha vida. Se ele pensava que eu seria dele como um escravo é de seu senhor de engenho, como um cão é de seu dono, ele muito se enganava. Ah, mas muito! Eu nunca mais iria vê-lo, e já o tinha em mente. Eu não queria mais saber de nós. Que fôssemos para o inferno, nós! Saí correndo desenfreada daquele banheiro para qualquer lugar tido como longe.
Sumi. Ele queria os filhos, o casamento, não queria? Chegasse ao meio dia.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Educação Física

Tudo bem que eu não sou um gênio, não tiro notas excelentes, mal sei fazer conta de dividir e sempre esqueço onde fica o Paraná no mapa na prova de geografia – sempre cai essa porra, mas eu peguei mania de só responder “globalização” e “êxodo rural” em todas as questões e parece que às vezes funciona -, mas o grande problema da minha vida escolar sempre foi ela, a maléfica e aterrorizante educação física. Desde pequena eu coleciono um leque de questionamentos acerca do que os professores/pseudo-atletas enchem a boca para chamar de “uma matéria como todas as outras”. Por exemplo: queimado, me explica - pra quê? Queimado é um negocio violento, aguça a marginalidade nas menores e mais inocentes criancinhas e de quebra machuca os sensíveis! De que forma isso pode ser benéfico para uma pessoa, meu deus? Quer descarregar a energia do garoto? Põe na natação! Não dói, não marginaliza, não cria trauma. A menina você pode por no balé, no jazz. Olha aí. Com tantas opções, pra que jogar queimado?! Eu nunca botaria o meu filho pra jogar queimado. Talvez porque eu não pretenda ter um. Mas isso é tópico para outra conversa. Outra coisa que eu não entendo/gosto/consigo é pique-corrente. É tipo uma espécie de frente de batalha só que desarmada, desengonçada e sem objetivo de luta (pegar o coleguinha não conta, to falando de algo maior, como conquistar um país, quem sabe). E sempre tem o retardado que solta, o imbecil que cai, o gordo que não acompanha o ritmo de corrida do resto, o débil mental que corre pro lado oposto de toda a corrente, o enfurecido que vai mais rápido que todo mundo e acaba por destruir os elos em menos de um milésimo de segundo com a sua força vulcânica, etcétera. E isso tudo é só o aquecimento; fode mesmo é quando começa a aula. Começando pela escolha dos times: sempre tem aquelas quatro ou cinco que jogam melhor do que todo mundo (mas tudo bem, geralmente são feias), e elas são as que escolhem os times. Essa pra mim é a hora do descanso. Isso porque entre umas quarenta alunas, eu sou sempre a última a ser escolhida. Então eu já providencio a minha água de côco e a minha barraca para ficar debob enquanto vejo uma a uma levantando e saltitando alegremente para o seu destino. Duas horas depois começam os esportes, que costumam ser handebol, futebol, vôlei ou basquete. No handebol, eu, 94% das vezes fico correndo de um lado para o outro com os braços levantados, pra tentar “marcar”, porque é isso que quem não sabe fazer gol e nem impedir que façam contra o seu time faz. Nas outras 6% sabe-se lá o que eu estou fazendo (ta, eu fui legal demais comigo mesma nessa porcentagem. Talvez seja o contrário). O futebol é o que eu mais gosto. Acho que é porque nenhuma menina sabe jogar futebol. Então eu sou só mais uma. O vôlei é o menos trágico, porque não tem que correr, então é bastante cômodo. Fora que dá pra fingir facilmente que você está jogando, só ficando parado e olhando com cara feia de “putz” quando a bola sai ou o time adversário marca ponto, como se isso te chateasse profundamente. Agora, basquete eu não jogo. Não jogo, não jogo, não jogo, não adianta. Eu hein, tenho amor pelo meu dedo mindinho. Me martirizei por anos nessa bosta desse basquete, até perceber o mal inenarrável que ele me fazia, e aí foi quando cortei de uma vez por todas qualquer tipo de relação com aquela bola laranjamente gigante.
Mas enfim, educação física é saúde.

domingo, 9 de agosto de 2009

Acerca da vontade

Eu não acho que exista alguma coisa pior do que a vontade
vontade é um negócio que dá e passa
mas que é que dá
e não passa?
Ímpeto
ímpeto é a vontade obstinada só que com muito mais pressa, vamos colocar desta maneira
do dicionário: 1. Movimento impulsivo, violento e repentino. 2. Arrebatamento. 3. Abalo; agitação; precipitação.
violência e agitação. Bacana...
Não existe alguma coisa pior do que a vontade
nessa hora talvez eu até dissesse
"- ímpeto"
Nem.
vontade costuma arder. arde e te faz se arrepender
que na vontade você
(leia-se ser humano genérico)
você tende a fazer o que não faria em uma situação normal
(leia-se sem vontade)
e isso é óbvio, é uma coisa óbvia
você só faz o que tem vontade de fazer
e se você não estivesse com vontade de fazer isso
você não estaria fazendo.
né?
mas enfim, você faz isso, entende?, e depois você muito provavelmente está fudido
Existe definitivamente uma coisa pior do que a vontade.
É a vontade de sentir vontade.
Tá maluco...

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Pássaro

Se toda eu bato as asas
Passeio no céu pelas aves
Passo pelas aves

Se eu com afinco bato as asas
Passo do céu
Passo das aves

Eu com vontade eu viro
garça
Eu passo as pombas
Eu passo as aves

Se as asas das aves
Baterem mais lento
Que o meu passo

Passo em vôo
Eu passo e de novo
Eu pássaro

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Jeffrey, (e) o mordomo

Jeffrey já teve seus altos e baixos. Mas tudo começou quando resolveu andar com aquele chapéu preto, tipo quepe, do mordomo. Maldito chapéu. Nada disso teria acontecido se Jeffrey não tivesse tido a estúpida idéia de colocar aquele chapéu preto na cabeça.

Dia trinta de agosto de mil novecentos e cinqüenta e sete. Iva e uma segunda moça estão sentadas na frente da lareira central da grande sala, aquecendo-se naquele inverno cruelmente frio de Moscou.

- Gostaria de um chá, madame?

Jeffrey havia, de uns tempos para cá, tornado-se um tanto quanto prestativo.

- Ah, coitadinho de Jeffrey. Enlouquecido. Totalmente pirado. – Iva não se havia feito muito clara até então.
- O que há com Jeffrey? – tinham uma convidada esta noite. Noralina, menina-moça, de uns já dezoito anos. Alva como a branca de neve, a da historia infantil. De uns cabelos meio arruivados, alaranjados, até. Não a ponto de serem feios; muito pelo contrario, Noralina era de uma beleza exótica, de um requinte na aparência. Os espelhos gostavam dela, e bastante. Os homens também. Havia vindo jantar em nome de seu pai, Bernitus, para tratar de negócios que interessavam a ambas as famílias.

- A madame não respondeu se gostaria de um chá, madame.
- nda tão louco Jeffrey!
- Mas o que é que tem ele?
- Anda achando que é o mordomo, depois que passou a usar este chapéu. Ao mordomo que é mordomo de verdade, ele faz questão de servir e tratar como se fosse o patrão.
- Ora, pobre Jeffrey! Ficou então tantan?
- O pior é que não sabemos se é algo de definitivo. Isso me tem entristecido tanto. Jeffrey nem se deita mais em nossa cama. Recusa-se. Diz que é antiético dormir na cama do patrão e, ainda mais – pior -, junto com a patroa! Nem me lembro de quando foi a ultima vez que fizemos sexo.
- Mas onde já se terá visto?!
- Não se viu! Nunca se viu! Obriga-me a dormir ao lado do mordomo, e como se fosse a coisa mais natural do mundo. Acorda-nos pela manhã, a mim com um chamado sutil,

- Iuhúú, madame? O galo canta, o mordomo desperta, e desperta a patroa!

e ao mordomo com o jornal do dia. Prepara a mesa do café da manhã, onde coloca no lugar que costumava ser seu o pão com manteiga e o café com leite que ele tomava enquanto ele ainda era ele, e depois as torradinhas, as mesmas torradinhas que ele comia. Depois escolhe a roupa do mordomo em seu antigo guarda-roupa,
- O mordomo é quem deve estar divertido!
- escova-lhe os dentes,
- Que nojo! É duro de acreditar!
- amarra-lhe os sapatos e enfim abre a porta para que ele pegue o carro, cujas chaves o mesmo faz questão de entregá-lo. A mim o mordomo beija esquisito, olhando ora para mim, ora para Jeffrey, como quem pergunta “é mesmo para eu fazer tudo isso, senhora?”. Oh, é tudo tão estranho, Noralina, que eu nem sei o que é que se há de fazer!
- É possível que Jeffrey esteja passando por uma crise de identidade.
- Está é doido, é mais além!
- Já pensou em levá-lo a um psicanalista?
- E tenho como? A toda hora ele está me lembrando de compromissos a que eu preciso comparecer, apressando-me para aprontar os cabelos, ou enfurnado na cozinha, preparando o almoço ou o jantar! Não há maneira de convencê-lo, já que nem um segundo eu tenho para me comunicar com ele, pois ele não deixa!
- Oh, eu conheço alguém que pode vir vê-lo.
- Por que não tentas tu mesma te aproximar? Tente arrancar algo dele! Veja o que ele diz e me conte, depois.

- Olá, Jeffrey.
- Senhorita – Jeffrey curvou-se cordialmente. – deseja algo em que posso ser útil? De repente um chá?
- Não, obrigada, estou muitíssimo bem. Frio aqui, não?
- Frio, senhorita? Temos cobertores de lã nos aposentos da patroa. Pegarei um para a senhorita e logo retorno. Certamente que irá aquecê-la... – virando-se já rumo as escadas.
- Espere, Jeffrey – Noralina neste momento segura o braço de Jeffrey.
- Oh, senhorita, por favor. Não creio que seja de bom grado ter contato físico com um empregado.
- Jeffrey, você não é empregado desta casa.
- Como diz, senhorita?
- És o patrão. Marido da senhora Iva. Teu nome é Jeffrey Opigno, e o nome dela é Iva Opigna. Vocês moram aqui, os dois. E o real mordomo chama-se Edno. Por favor, tente recordar-se, estás fazendo sua senhora muito sofrer com todo esse desvario.
- Sou um reles empregado, senhorita.
- Não és! Você é o construtor deste império que é a sua casa e é também o chefe de sua família! Lembra-te de tuas filhas, Clera, Frandeza e Polya, de teu pai, Ovan Opigno. Tudo isso te pertence. Somente a ti é que tudo isso pertence!
- Estás, com isso que dizes, ofendendo o meu patrão, o senhor Edno, que tanto trabalhou e suou para erguer o patrimônio que possui. Ele, um homem decente, tão bom e tão trabalhador, que por anos a fio se multiplicou em mil para adquirir a riqueza que hoje é de seu domínio. Que sacrificou tanto tempo e tantos prazeres pelas responsabilidades de pai e marido que havia contraído em sua vida, e tão cedo, o brilhante senhor Edno.
- Mas não vês que tudo isso quem construiu foi você, homem? Este é você!
- E se ofendes meu patrão, ofendes também a mim!

Iva percebeu que o tom da conversa elevava-se cada vez mais e, num ato reflexo, decidiu envolver-se.

- Jeffrey, por favor, pelo amor de Deus!
- Minha senhora, por acaso ouviu tudo o que esta senhorita estendida em minha frente ousou dizer?
- Ela disse a verdade, Jeffrey!
- A verdade? Então compactuam ambas? Pobre senhor Edno, não merece as horríveis pessoas que o cercam.
- Você não está bem, Jeffrey, você está com problemas!
- Com problemas estão as duas, senhora e senhorita! Com o perdão da palavra, se agrido a senhora, peço que me desculpe, mas é ao patrão que devo extrema fidelidade.
- Esta casa está bem fria e por isso eu vou cantar, e quem sabe um lalalá vai me aquecer... – Iva canta um trexo da música que ela e Jeffrey cantavam quando sentiam muito frio, para tentar reavivar sua memória.
- Mas isto é um absurdo! A senhora se atreve a tomar tais intimidades comigo, as mesmas que toma com o senhor seu marido! Não tens então vergonha?
- Jeffrey! Como pode dizer isso? Edno é um empregado! Meu marido é você – a mulher totalmente desolada, já sem saber o que fazer, vê-se perdida.
- Não consigo ouvir! Vou tapar meus ouvidos! Se o senhor Edno ouve isso, perde em mim uma confiança que já vem depositando há anos! Prefiro morrer a assistir a degradação do senhor Edno ao ouvir tão sórdidas, ingratas, injustas, imorais palavras!
- Jeffrey, uma ultima vez, tente escutar! Meu amor!
- Nem mais uma palavra. Eu me demito!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Pequenina observação

P.S.: Cadore acha que é megalomaníaco porque posta todas as terças e sextas. Pf, eu posto todos os dias.

Mania de Perseguição (a 4 mãos)

Foi quando Fátima colocou a mão sobre o meu ombro direito e disse:- Origoun Straisef.- Mas que merda é essa? – Comecei a pensar se isso era uma pegadinha de Fátima, se ela tinha desenvolvido problemas fonoaudiológicos ou se o meu ouvido estava retorcendo os sons através de uma mudança na fluência das ondas radioativas. Origoun Straisef... Que merda é essa? Será uma expressão em outra língua? O que levou a Fátima a me dizer isso? O que a terá levado primeiro a aprender alguma coisa em uma língua bizarra e, depois, a me dizer? E logo para mim? Será que é um xingamento? Por que será que essa maluca está brincando de me xingar em outra língua? Que brincadeira besta essa, achei um porre essa onda que a Fátima entrou. Só que ela está séria... Não deve ser brincadeira. Então se ela estiver me xingando em outra língua, ela não está brincando de me xingar em outra língua, ela está literalmente me xingando em outra língua! Mas que babaquice! Essa desgraçada está me xingando em outra língua só pra... só pra... pra eu não entender! Mas não tem problema, eu vou procurar no Google o que significa esta porra e aí a Fátima vai se ver comigo. Onde já se viu. Logo a Fátima? Por que ela estaria me xingando? E eu, oh, pobre inocente, que achei que a Fátima gostasse de mim. Mas não. Esse é o meu erro, sair confiando em todo mundo assim, sair achando que todo mundo gosta de mim. Ta aí no que é que dá. Uma punhalada nas costas. A Fátima. E eu, eu nunca imaginaria. Nunca poderia imaginar! A Fátima! E ainda por cima de uma forma humilhante, pra eu não entender. Diminuindo, subestimando a minha inteligência. Mas é um negócio que eu custo a acreditar. Logo a Fátima, para quem eu dou conselhos, para quem eu conto os meus segredos! A Fatinha, que eu abriguei na minha casa e dei comida. Logo a Fátima! Sabe o que eu vou fazer? Sabe? Eu não tenho medo não, hein! Eu vou é mandar essa desgraçada ir tomar no meio do... Se bem que não. Não vou falar nada. Vou ficar calado, vou ignorar, vou sair absoluto. Vou cortar relações com a Fátima. Agora quero ver essa desgraçada me humilhar de novo dessa forma, vai é se ajoelhar pedindo desculpas, implorando pela minha amizade, mas quer saber? Foda-se, não vou desculpar essa vaca, nunca! Ela tem mais é que ficar sozinha. Vou espalhar para todo mundo a ingratidão dessa desgraçada, tomara que ela fique completamente largada! Tomara que ela morra sozinha num asilo, vivendo a base de frango com quiabo, sem ninguém para visitá-la
- Opa, eu tava comendo bolinho. Eu disse: que bom, tirei sete! Ah. Então era só isso. Só isso que ela queria dizer. Melhor. Acho bom. Legal ela ter tirado sete, bacana Uma boa nota. Se bem que... Peraí! Por que ela está me contando isso? Ela por acaso está querendo me humilhar pelo simples fato de eu ter tirado quatro? Enquanto isso ela está lá, se esbaldando com o seu sete. Ela vai esfregar esse sete em mim, jogar na minha cara que se acha mais capaz do que eu? Logo a Fátima?! Logo a Fátima, para quem eu dou conselhos, para quem eu conto os meus segredos! A Fatinha, que eu abriguei na minha casa e dei comida.. A vaca da Fátima, essa escrota, apaputaquetepariu com teu sete...


Por Yasmin Gomlevsky e Daniel Belmonte!
ps.: uhul, participação especial no blog da yaya!

domingo, 2 de agosto de 2009

Lúcia e Marcos


- Eu quero contrô! Me traz a minha garrafa de contrô! Nós vamos sair pela porta da esquerda que não é uma porta, é aquele portão magnífico, que tem aqueles adornos banhados a ouro maravilhosos. Me fazem sentir como a Marilyn Monroe totalmente bêbada! Meu contrô! E nós, Jean-Robert, vamos ganhar o mundo assim que sairmos por aquela porta deslumbrante, eu com o meu vestido Donna e você com os seus sapatos que eu vou mandar engraxar com o mais famoso engraxate de toda Veneza! Ah, Jean-Robert, nós vamos estar em Veneza quando sairmos pela porta cujos adornos são metálicos, porque em Manhattan é que tem dessas coisas. De repente tudo vai ficar dourado, nessa hora vão ter três saxofonistas de cada lado, que eu já contratei no mês passado, para anunciar a nossa entrada. Vamos entrar assim que rugirem os tambores. Quer dizer, vamos sair. Ou melhor, vão anunciar a nossa saída e a nossa conseguinte entrada. Porque quem sai acaba entrando em algum lugar, é, Jean-Robert, ou não é? Aí então vamos desfilar, eu com os meus sapatos e você com o seu vestido, os dois estampando os mais sínicos e invejáveis sorrisinhos que já se viu em toda Dinamarca! Veneza vai parar para nos assistir, Jean-Robert. Meu contrô, antes! Mas temos que ter muito cuidado com o Rei, toda essa história de dourado costuma deixá-lo muito sensível. E nós não queremos que a morte do Duque ofusque o brilho de nossa passagem. Nós vamos passar pelo tapete vermelho, não, vermelho não, dourado, que, onde tudo é dourado, é metálico também o tapete, então vamos passear pelo tapete dourado e seremos saudados por todos os figurantezinhos da ocasião. Todos dourados. Podemos pintá-los com spray. Bem, não importa, tudo, tudo, tudo metálico, pode ser mais espetacular, Jean-Robert? E agora ligue na Paradiso e trance os meus cabelos.

- Ok, Lúcia.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Adeus ou Não posso te dizer pra onde vou porque não sei

Entrei em seu carro e lá fomos nós. Eu abri a janela porque aquele cheiro de carro - sabe cheiro de carro? - aquele cheiro de carro me dava uma agonia, tipo, um enjôo terrível. Olhava ora para fora, ora para dentro, enquanto fazia movimentos loucos quaisquer com o braço direito contra o vento. Sempre gostei de fazer esse negócio, eu me sinto meio que numa espaçonave, em algum lugar como a lua, em que não tem gravidade. Ele me dizia algumas coisas às quais eu não prestava muita atenção. Há meses que não nos víamos, ele estava diferente, um pouco mudado, mais magro. Os cabelos também estavam meio esquisitinhos, liso dos lados e cacheado no meio, sei lá se isso existe - já viu isso? Nós íamos a um restaurante no Jardim Botânico, mas ele se perdia toda hora, entrou em uma cinco ruas erradas. Ele no volante era péssimo. Às vezes eu dava atenção ao que ele falava, mas ainda assim com o mesmo ar grosseiro de sempre. Eu sou sempre muito grossa com ele. Ele merece. Enfim, falava sobre coisas que não me importavam ou interessavam. Eu cagava, mas respondia, para não ficar parecendo que eu estava cagando. Ele olhava pra mim - como você é linda -, olhava pra longe, olhava pra mim, olhava pra longe. Eu sorria amarelo. Ele na verdade não prestava muito não, eu sabia disso e estava ali só porque ele disse que queria se despedir de mim, que ia viajar para não sei onde, que ia fazer não sei o que lá. Tá bom. - Vou sentir saudade de tudo isso - Viagens passam rápido, quando você perceber já vai estar de volta. Quando eu dizia isso, eu disse umas três vezes, ele me olhava com uma cara melancólica, das mais tristes que eu já havia visto. Uma cara de - coitadinha, não sabe de nada. Eu, hein. Mas não é?
Ele passava pelos lugares e, ao passo que ia se perdendo e se reencontrando no caminho, me dava algumas recomendações. Tudo muito esquisito, é claro. Eu, com vinte e seis anos, sabia muito bem que era pra ter cuidado ao andar na Voluntários à noite, que o metrô não era muito seguro depois das oito horas, que o Koni estava subindo de preço e por isso seria inteligente guardar aquele cartãozinho que te dá um desconto após a compra de dez konis, e vai por aí. Ele me dizia isso tudo repetindo algumas vezes as mesmas coisas - você não me vai ficar andando por aí na Voluntários tarde da noite. E o metrô, você cuidado com o metrô, hein! Que metrô depois de oito horas é um perigo. Guarda também o cartãozinho do Koni que dá desconto porque o preço dos Konis só faz subir. E não me vai ficar andando por aí na Voluntários depois de escuro, hein! -, parecia ausaimer. Era um festival de ''eu, heins''.
Chegou num assunto que eu além de ouvir fiquei prestando atenção e ainda de quebra respondi. Era sobre uma gentinha que eu odiava e que ele amava. Eu disse que ele não prestava. Que aquilo tudo era culpa dele, que ele não prestava, que ele não prestava, ele chorava, eu gritava mais, quanto mais ele chorava mais eu gritava, que aquele chororô estava me dando uma porra de um ódio dele, mas um ódio dele! Saí do carro batendo a porta o mais forte que os meus pequeninos braços me permitiam (bem mais forte que o suficiente), gritando todos os palavrões que constavam no meu acervo léxico - putaqueopariucaralhoseufilhodeumaputaquemerdacomoéqueeufuiconfiaremvocêvocêémesmoumfudidodemerda" - e jurando nunca mais querer olhar a fuça daquele rapaz novamente em vida. Isso foi verdade por um tempo.
Três meses depois lá estava eu, com uma rosa em uma mão e um pedido de descupas pela minha esquentadês. Toquei a campanhia da casa dele. Esperei um tantinho, ninguém abria, resolvi ligar para o seu celular. Caixa postal. Toquei mais uma vez - dona Cida? Estelinha? -, cadê a mãe, a irmã? Ninguém? Abriu a mãe - quanto tempo, minha filha - ela dizia isso com o ar deprimido que nunca tivera. Trajava um longo vestido negro muito simples, não estava maquiada, como eu havia guardado a sua figura em memória. Achei-a pálida e demasiadamente infeliz. Perguntei o que havia acontecido - cadê ele? É que trouxe uma - ela me interrompeu - eu achei que vocês estivessem brigados, ele estava tão mal -, eu me animei nessa hora - ah, nós estamos, sim! Mas quero fazer as pazes. Eu trouxe uma rosa! - dona Cida chorou muito, muito, muito, muito, quando eu disse isso. Mal podia sustentar-se em pé. Foi cambaleando com minha ajuda até o sofá, onde apoiou seus braços, ajoelhada no chão e cabisbaixa. Desesperei. Sacudi a pobre mulher até que ela me falasse o que havia acontecido - ele morreu - disse seca - já tem três meses. Parei.
Eu olhei para qualquer lugar. Não via nada. Só conseguia sentir os meus olhos enchendo-se de lágrimas. O meu corpo todo tremendo como que num choque - o quê? -balbuciei - ele não ia viajar? - tudo isso imóvel. I-mó-vel. - Ele - controlou-se dona Cida, e tentou me explicar com as poucas palavras que lhe restavam - te disse isso para que você não sofresse - mas ele me disse um nome! Um nome! Pra onde ele ia! Pra onde ele foi? Eu vou atrás dele! Eu vou atrás - chorei, choramos. Uma no colo da outra, como mãe e filha. - Ele não te disse para onde ia, minha filha - dona Cida, numa última fala -, porque nem ele sabia.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Gás

se sou bolinha é culpa tua
que fura a minha bunda e
faz cócegas nas narinas

sendo preta e vermelha
mais preta que vermelha
eu te amo ah!, eu te amo

é só por tua causa
faz do meu copo, gaiola
pro meu corpo, esmola

coca-cola

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A carta

Ai meu deus, o que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz, meu deus? – a puta não sabia o que era que ela tinha feito. Aliás, ela sabia sim, e muito bem sabido: ela podia ver na sua frente. Só não sabia como! Como? Ela havia ido ao quarto guardar os sapatos, nisso, voltou ao banheiro e estava ali o homem, todo ensangüentado, dentro da banheira cheia já com a água toda manchada de vermelho. Ao lado da banheira, uma faca empestada do mesmo sangue. De certo se alguém entrasse ali naquele momento, iria culpá-la. Mas eu – sofregamente disse a puta -, uma pobre puta, contratada por apenas uma noite, nem conhecer o homem eu conheço, meu Deus; que intenção, ai meu deus do céu, que intenção teria eu de matar o homem? Ao lado da banheira, uma carta. A puta olhou a carta e refugou com a cabeça, como quem é jesus e foge da cruz. Será que ela abria? Mas eu hein – ela – deus me livre! De abrir essa carta! Abrir, eu não abro. Nem toco! A puta tinha um negocio com deus. Era uma puta religiosa. Tem dessas coisas. Enfim, o homem, o sangue, a puta, a carta. A carta olhava para a puta, como dissesse “me abre, vai, me abre”, a puta olhava para o homem com o maior horror que ela encontrara para sentir, e o homem não olhava para nada, que morto que é morto não olha pras coisas. Teve uma hora – essa hora – em que a puta não agüentou mais de tanto ser olhada pela carta e foi lá e abriu.
“Agora é tarde para pedir que eu volte, Lucinda – Lucinda, nome interessante – pensou a puta -. Não dá mais tempo! Eu disse, não disse? Eu avisei que me matava, não avisei que me matava? – a puta se sentou acompanhada de um leve sorriso na cara – não fui eu! Não fui eu! O homem virou presunto porque quis - mas quem acreditaria nisso? Foi em que esqueceu de pensar a puta – agora não adianta mais, Lucinda, me pedir desculpas. Se queria ter feito isso, tinha que ter feito antes. Pedisse desculpa antes de eu me matar. Eu espero que você sofra bastante, sabe, Lucinda. Sofre bastante mesmo, que nem eu sofri por você quando era vivo – essa é a parte em que o defunto esperava que Lucinda chorasse; aplicar verbos no passado referindo-se a si mesmo sempre funciona, é bem dramático e costuma fazer chorar na certa -. Adeus, Lucinda. Tenha uma boa vida”
A puta estava num êxtase misturado de sentimentos como felicidade, medo, pena, pavor. Ele não tinha nada que ter se matado, não tinha nada – ela refletia consigo mesma. Então que uma mulher vale tanto assim? Uma vida? Terminou de apiedar-se dos problemas alheios assim que percebeu o tamanho do próprio: ela precisava sair correndo dali antes que algum serviçal batesse a porta ou, pior – imagina, meu deus! Uma coisa dessas! –, antes que resolvessem entrar com a chave mestra. Era um motel desses luxuosos. E o problema era o problema que surgiria por trás daquele problema: tudo bem, ela poderia pegar algum dinheiro na carteira do homem, se vestir e ralar peito do local o mais rápido possível, mas todo mundo de fato acharia bem estranho uma moça que visivelmente era uma puta saindo de um motel desacompanhada e pagando a própria conta! Algo com certeza não estaria certo. Então ela viu-se num beco sem saída. Pois se ela fizesse isso, voltariam ao quarto e encontrariam o corpo, supondo com veemência que se tratava de um assassinato. A primeira opção em que pensou foi chamar a polícia. Mas sendo uma puta, quem seria presa era ela (à época, auto-comércio era crime). Podia fingir que não era puta, mas – ah, deixa pra lá, ela não era atriz, não ia dar certo, num ia, num ia. Olhou em volta ansiando por uma janelinha que fosse. Parecia a melhor alternativa, sair pela janela, sem ser vista. Não havia, porém, nenhuminha. E mesmo que houvesse, se alguém a pegasse fazendo isso, seria como se entregar numa bandeja de prata, confessar um crime o qual nem havia sido ela quem cometera. Depois de mil e outras idéias, todas ruins, decidiu-se: parecia-lhe a única solução, a única, senão não teria sido a escolhida. Tomou a faca em mãos e cortou o pescoço, deixando-se cair sobre o corpo do homem.
Por falar na carta, ela haveria de ser encontrada uma hora ou outra. E agora ela olhava para os dois, que não olhavam para lugar nenhum.

sábado, 25 de julho de 2009

Do que você se diria se soubesse se escutar

Germana colocou as mãos na cabeça e tudo rodava. Tudo tudo tudo rodava, dos passeios ao shopping à garganta que latejava. Era filho, louça, homem, louca. Louca, louca, louca! O mundo, o que ele queria dela? Ela, o que ela queria do mundo? As meninas que brincavam, ela já não tinha mais o seu viço, os cachorros balançando os seus rabos eram bem mais felizes. Alguma coisa a atormentava e, nem ela, nem essa pobre narradora ousam saber o que seja a tal da coisa. Ela queria chorar e – olha que interessante – ela já não chorava fazia tempo!
- Papai!
Ela gritou por seu pai, o que era estranho, estranhíssimo: o pai houvera morrido já nem sabia mais há quanto tempo. E ela nunca fora tão apegada a ele assim, pra sair gritando papai enquanto rodava.
Agora era ele que ela queria. Ele ele ele. Ela não podia mais ficar em pé, a cabeça, o pai, o pé, a garganta.
O pé doía de ficar em pé.
Ela doía de ficar de pé.
Queria o pai, ela doía e ardia em todas as partes, queria a feira de bonecos de pano que ia aos domingos de trinta anos atrás, queria o Juca e o Felipinho, usar fraldas e tomar na mamadeira, quem sabe. Queria não saber e nem nunca ter ouvido falar na palavra “computador”, queria não ter chegado aos quarenta e cinco na era da internet e da tecnologia, ela não suportava ser quem era, estar onde estava, conhecer o que conhecia. Tudo o que fazia parte de seu mundo lhe era estranho e lhe parecia alheio. Ela não queria fazer parte de si mesma.
Ao que parece, é claro.
Devia ter sido bailarina. Fugido de casa pra ser bailarina – fugisse de casa (tinha um banheirinho na academia de dança em que ela definitivamente poderia ter se ajeitado, com um colchonete)! Não tê-lo feito foi pura covardia. Foi fraqueza que definiu toda uma vida de infelicidade. Ela agora sentia nojo do jaleco. Tinha feito medicina mesmo sem nem poder olhar uma gota de sangue. Que se olhasse, desmaiava. E se desmaiava, o paciente morria. Abertinho, todo descosturado. Já sentia nojo do jaleco e dela. Aquelas mãos conheciam tanto sangue! Já haviam se misturado com ossos, pulmões, veias-cavas. Nojo nojo nojo.
Germana não foi feliz em nenhum momento. Nenhunzinho que fosse. Feliz, a Germana?
Os maridos que ela arrumara tinham sido todos uns inúteis – tudo culpa da mãe dela. A mãe dela era uma vaca, a mãe da Germana.
Germana sempre achou bonito ser grande. Bailarina, pra ela, era grande. Ela queria ter sido bailarina, a Germana.
Agora ela só sabia era rodar com as mãos na cabeça.
Aí ficava rodando, pra tentar imitar as bailarinas.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Cabô fragmentado (roots)

1 - não fossem os desdizeres
dessa boca que me disse
o quê, não posso dizer
pois disse se eu dissesse
me maldiria
e esta boca ela mesma
teria-me dito as doçuras
mais doces que eu ouviria


2 - estamos no ponto em que olhar já satisfaz

3 - muito verdes
os teus belos olhos -
são como a Rodrigo de Freitas
só que transparentes

4 - a maldade que o vento traz
será ela tão bela
quanto a beleza
tão triste quanto a tristeza
ou apenas má?

5 - eu vivo
e enquanto isso
eu morro
de saudades

6 - o amor nosso é o só
o só eu
e o cúmulo
é a tua presença
ausente

7 - ser sem ti
é como ser contigo
só que preto

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Sei lá

Eu até poderia ter pedido pro seu Dode um aumento. Poderia ter procurado um outro emprego que pagasse melhor, que oferecesse condições mais estáveis. Eu poderia ter vendido a casa ou lançado a aluguel, ter pedido empréstimos no banco ou pra alguma prima, poderia até ter traficado drogas.

Com quatro filhos pra criar, o negócio fica diferente. A gente tem que se dobrar em oito pra dar de mamá, comprar comida, levar na escola, botar pra dormir, cuidar quando adoece. É foda. Ser mãe solteira é foda.

E além de tudo eu já não era comida, assim, de dar gosto, há uns três anos. Três anos! Você sabe o que são três anos sem uma boa trepada? Ou, nem precisava ser tão boa, mas uma trepada qualquer? Não sabe. Não, não sabe. É que na falta de tempo não dava tempo mesmo, né. E na falta de homem, não tinha homem.

Não que eu fosse feia. Eu sempre fui bastante ajeitadinha, nunca deixei de ouvir uns fiufius quando passava.

As coisas começaram a ficar apertadas, e eu já não podia mais alimentar cinco bocas trabalhando em casa de família. O dinheiro era curto e não dava era pra bosta nenhuma. Um batonzinho, então, eu não sabia o que era fazia tempo...

Tudo isso não bastasse, eu ainda estava subindo pelas paredes. Precisava dar. Dinheiro, sexo, filhos, filhos, sexo, dinheiro. Dinheiro, dinheiro, dinheiro, filhos. Filhos, filhos, sexo, sexo. Dinheiro, sexo, dinheiro, sexo. Uma semana mais e eu seria capaz de... sei lá. Nunca fez tanto sentido!

Sei lá foi o que eu fiz.

Afinal, com quem o sexo pode fazer melhor comércio que com o dinheiro?

terça-feira, 21 de julho de 2009

Eu, hein

Como é que é o negócio? E agora é assim que se adora? Vai se esquecendo de quem é que namora sem nem dizer pronde vai só que vai embora já sai já vai saindo e eu aqui enquanto tô rindo tô chorando infindo por dentro que é pra não parecer que tá doendo e aí eu te sigo com o olhar enquanto umas duras palavras eu mastigo pra não ter que falar que se eu digo aí você reclama. Reclama que assim não dá que cadê a liberdade que eu fiquei de te deixar ter e nem adiantaria eu dizer que não é porque eu quero te prender já que você não ia ouvir ia bater o pé e gritar que tá atrasado pra sair ia me mandar parar de rir que esse riso é irônico é falso pára pára! Então que nem se eu pedir você me encara porque não tem como os seus olhos passeiam e eu é que embromo (como diz você) se quer acabar muito bem vamos acabar eu não perco nada eu na verdade nem você eu tô perdendo que eu já não tô te tendo então isso! Essa é a solução pra um caso que não tem condução de volta tua falta de amor meu excesso de paixão se eu ch se eu ch se eu choro is is is isso ttt ttt ttt te te ter termi terminando? Eu não eu hein.

domingo, 19 de julho de 2009

Trava

travesseiros:
travessos/ verdadeiros/
trapaceiros
portais de cheiros.
Memória

sábado, 18 de julho de 2009

Menina palco luz e e e

A menina sobre o palco e a luz que a cegava quase e as pessoinhas dos olhinhos brilhando (quantos quantos! tantos) e as vozes que ela ouvia e que ninguém mais e as suas mãos com as quais ela ficava meio que tentando descobrir o que fazer enquanto já fazia e agora não tinha mais pronde correr e não corria. Ficava. A menina que sentia uma felicidade quente tão tão tão quente que em vez de queimar sorria e ela amava de uma forma louca aquele chão preto arranhadasso sob os seus pés alguma coisa louca louca mesmo eu não tô zoando! e meio escorregadia. A menina repetia repetia uma coisinha escrota tipo um mantra tipo um eu adoro sentir os meus movimentos e ouvir o som da minha voz e eu tenho total controle sobre o ângulo de trezentos e sessenta graus à minha volta. A menina pensava certo - tava tava certo! - que naquilo tinha um quê de morbidez já que o quase sorriso fruto da felicidade borbulhante que não queimava por causa de bondade advinha só e só das lagriminhas tantas que eram por causa dela e do que ela fazia. Que aquilo que ela fazia conseguia deixar os outros tão tristes que isso não podia ser nada diferente da melhor coisa do mundo.
Tô louca ou tá certo?

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Amélia e o outro

Uma senhora de uns cabelinhos já brancos e ralos, mas não tão senhora assim a ponto de ter perdido o senso de moda - ela se vestia como uma lady -, sentava-se numa mesa daquelas quadradas de marfim do Batata Inglesa, no Shopping da Gávea. Em sua frente a bandeija, sobre ela uma batata cujo recheio não deu para ver e algo como uma água com gás (poder afirmar isso com certeza seria um tanto psicopata da minha parte. Eu estava só olhando). Eis que havia ali, no outro lugar da mesa de dois, uma nova bandeja. Ela abriu a garrafa d'água, - pera aí. Na ignorância do nome da criatura, vamos chamá-la de Amélia, porque "ela" já está começando a me irritar - destacou os dois copos que se encaixavam um no outro, colocou um sobre a bandeja do lugar vazio e um sobre a própria. A essa altura, eu imaginava coisas como o fato de Amélia ter um amigo imaginário. Louco, mas um tanto simpático de se imaginar. Amélia despejou cuidadosamente o líquido em ambos os copos. Começando pelo dela, colocou um pouco, passou para o outro, derramou mais um tanto, no dela, de novo, mais um gole, no outro bastante mais e, findando a experiência, deixou cair em seu copo as gotículas finais, como que dando nítida prioridade à outra pessoa. Fez tudo isso como um ritual, prestando atenção à cada detalhe, se preocupando com cada minúcia. Enfim, Amélia cruzou os braços sobre as pernas e atentou o olhar, arregalando as vistas e mexendo a cabeça em direções estratégicas. Eu parecia já ter desvendado tudo e - ah, não se fazem mais esposas como antigamente! Eu estava certa de que não demoraria muito para que chegasse o amor de sua vida, e eu teria o privilégio de testemunhar essa incrível ocasião. Afinal, não poderia ser diferente. Passaram-se uns dois minutos e se sentou à mesa uma outra senhora, ocupando o lugar metodicamente preparado. Olharam-se e sorriram. Esses tempos modernos...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Laranjeiras quando passa pela fonte da saudade e tal

cincosetezero querido não
pense que eu deixei de
amar os seus bancos cinzinhas ou
que deixei de poupar
os seus-só-seus doisevinte por vez
é só que venho querendo estar
a algumas laranjeiras
do túnel rebouças.

(mas prometo que é só uma fase)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Querido Orkut (ressurgimento)

Orkut é uma coisa muito curiosa. Quando você se inscreve nesse site de relacionamentos, tem que preencher uma espécie de formulariozinho, no qual estão contidas milhares de perguntinhas escrotas sem as quais a efetivação da sua inscrição não rola. A primeira coisa com que você se depara é o famoso “quem sou eu”, ou “about me”, para os aderentes do american way of life. Em principio, esse espaço era dedicado a frases clichês e totalmente óbvias que resumissem a sua pessoa, por exemplo, “eu sou um cara com muitos defeitos mas também cheio de qualidades, amo a vida e os seus ensinamentos”. Tinham até umas pessoas mais certinhas e especificas que não se contentavam com explicações generalizadas para seres humanos genéricos e faziam questão de colocar “Me chamo Edilza, tenho 1.73, meus dentes são próteses e eu moro de aluguel no banheiro da minha prima Mirtes, da Bahia”, elas preferiam uma coisa mais pessoal. Mas de uns tempos pra cá, as pessoas resolveram inventar uma moda de dar lição de moral ou citar frases filosóficas via perfil do orkut. Aí você acaba lendo coisas mais escrotas ainda, do tipo “Me jogue pedras e eu construirei um castelo”, ou “don’t worry, be happy”. Você desce um pouco os olhos e encontra uma série de perguntas esdrúxulas que não importam pra ninguém, a não ser pra você mesmo, que se diverte passando horas pra responder, já que finalmente “alguém” se importou com o que você gosta ou deixa de gostar. Livros. Uma pessoa que fica o dia inteiro com o cu na cadeira mandando scraps pros outros lá vai ler alguma coisa? As paixões geralmente são o mar, o sol, o surf, a areia – ou seja, a praia, de uma maneira fragmentada –, ou então alguma coisa mais ampla, pra aqueles que fingem ser ardentemente felizes e enchem o perfil de carinhas-sorriso ou o que seja essa porra, e aí preenchem essa perguntinha com respostas como “simplesmente, a vida”. Tem os egocêntricos, que se resumem a responder com uma palavrinha só: “paixões? Eu”. E quando perguntam sobre os filmes? Tem aquelas pessoas que fazem a mais absoluta questão de fazer uma lista quilométrica dos seus filmes preferidos, quando na verdade dois ou três nomes já estariam bastante suficientes. Elas colocam um asterisco e o nome do filme, um asterisco e o nome do filme, um asterisco e o nome do filme, novecentos milhões, trezentos e sessenta e cinco mil asteriscos e os nomes dos filmes. Como se alguém fosse realmente ficar lendo aquilo (o pior é que tem gente que fica). Atividades: o que seriam “atividades”, para o senhor Orkut? E os livros, paixões, filmes, esculturas, passeios de velocípede, animais de estimação, andanças de pedalinho na lagoa? Ainda querem mais atividades? Eles pensam o quê, que nós somos ativos? Hello, nós estamos no orkut! Quando você tem que adicionar também é meio engraçado. Talvez um pouco deplorável. Porque veja bem, quando você adiciona uma pessoa, você esta automaticamente se assumindo um solitário. Você manda alguma coisa tipo um recado, dizendo assim “oi, você se lembra de mim? Eu te adicionei, você pode me aceitar, por favor?”, ou então, pior: “quer seu meu amigo?”. A parte das comunidades também é bem ampla. As primeiras de que você faz parte são, geralmente, as clássicas. Existem várias, mais a mais legal de todas é aquela “nunca acabei com uma borracha”. Algo bastante construtivo, como sempre. Depois você começa a procurar alguma comunidade que tenha a ver com você, e acaba entrando em alguma tipo “Me apaixonei pela pessoa errada”. A medida em que você vai zanzando pelo site, repara na vastidão que é o acervo de comunidades existentes. E a diversidade é uma coisa absurda. Você clica em uma e vai chegando nas outras, através das comunidades relacionadas. Existem varias linhas de comunidades no orkut. A romântica, pra cornos e mal amados, do tipo “Me apaixonei pela pessoa errada”,“Será que você não vê que eu te amo?”, “O que eu faço pra você me notar?”, ou então “Estoy aqui, querendo-te”. A de auto-ajuda, como “Seja sempre você”, “Eu sou mais do que isso”, “Eu? Me abater? Nunca!”; a de intelectuais anti-sociais e totalmente cultos, tipo “A arte da Prolixidade”, “Good Writing is Sexy”, “Eu sou um personagem de Nelson”; a de recalcadas e/ ou trocadas por alguma loira mais gostosa, como “Eu Odeio Aquela Vaca” ou “Me bloqueia que eu te excluo”; a de ex-excluidas-agora-super-pops, como por exemplo “Baby baby, agora que cresci você quer me namorar”, “You are so last week” e “Vou pensar se te dou meu número”; a de gordos conformados, “Sou gordinho mas sou feliz”; a de gordos crentes na possibilidade de um futuro emagrecimento, “Fashion Week 2010, aí vou eu”.
O pior é que tem gente que perde tempo com essa merda. O pior é que tem gente que perde tempo lendo essa merda. O pior é que tem gente que perde tempo falando de gente que perde tempo lendo essa merda.

domingo, 12 de julho de 2009

Cabô

não fossem os desdizeres
dessa boca que me disse
(mirei a tua em beijo
o quê, não posso dizer
sorri)
pois disse se eu dissesse
me maldiria e
esta boca ela mesma
estamos no ponto em que
teria-me dito as doçuras
mais doces que eu ouviria
olhar já satisfaz
muito verdes
a maldade
os teus belos olhos
que o vento traz
são como a rodrigo
será ela tão bela
de freitas
quanto a beleza
tão
só que transparentes
triste quanto a tristeza
ou apenas
eu vivo
má?
e enquanto
isso eu morro
de
o amor nosso é o só
saudades
o só eu
e o cúmulo
ser sem ti
é a tua presença
é como ser contigo
ausente
só que preto

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Desabafo

Calar a boca é sempre muito bonito. As pessoas costumam perder essa maravilhosa oportunidade. Vamos lá, pensa em uma coisa específica que você tenha feito hoje, alguma situação pela qual tenha passado. Pensa no que você disse enquanto estava nessa circustância. Agora pensa bem: não seria bem melhor se você não tivesse dito isso?

domingo, 5 de julho de 2009

Sábado de manhã (ontem de hoje)

Meu irmão me deu um livro muito bom na semana passada. Falava muito sobre a observação. E eu, observadora de natureza, fiquei muito empolgada (talvez mais do que o suficiente) com isso. Ontem, sábado, eu acordei nesse tempo frio e não tinha nada para fazer. Resolvi colocar a minha calça bege larga, o meu all star vermelho e ir com a blusa do Dragão Verde que faço de pijama até a praia. Às vezes eu acordo assim meio inspirada. Praia no frio, de pijama, com um caderno e uma caneta. Sentei no banco e lá fui eu: comecei. Olhei, olhei, olhei, pra lá, pra cá, gente feia, gente bonita, pé, cabelo, como essa gente anda estranho!, gente brega, um gato, criança chata, cachorro, cara do biscoito globo, mais gente, mais gente, mar, mãos! Tenho prestado muita atenção à mãos, ultimamente. É bom isso. As pessoas dizem muito com as mãos (além de fazerem, é claro). Ao som dos Rolling Stones, comecei a anotar tudo tudo tudo. Mãos que andam junto com o corpo, que acompanham o movimento do pulso, mãos de viado, mãos que cutucam, que se mexem esquisito, mãos de velhinhos, mãos do caralho a quatro. Mãos, mãos, muitas mãos. Eis que se passou um tempitcho e eu percebi uma mesa do lado do meu banquinho solitário, na qual estavam umas cinco pessoas sentadas. De repente começo a ouvir umas risadas: estavam rindo de mim, os filhos da puta. Mas também eu não posso culpar os bichinhos. De fato deve ser engraçado ver uma pessoa olhando pros outros, rindo e escrevendo - sabe-se lá o quê. Enfim, foda-se. Nada mais divertido do que andar do Leblon até o Jardim Botânico, passar no Tablado e... continuar peregrinando.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Amarílio

O amarelo que amarela
A minha vida
É da mesma cor amarelo-ferida
Da ferida
Que você feriu
Em mim

segunda-feira, 29 de junho de 2009

American way of life

As pessoas estão ficando muito doidas. Elas meio que estão arrumando qualquer jeito de enfiar alguma coisa em inglês em tudo o que falam. Parece que essa porra de primeira língua está dominando o mundo. Bad, bad trip. Isso é de uma tamanha falta de sensibilidade para com a própria língua que, you know... Eu, inclusive, se estivesse no mercado das letras, publicasse livros e tudo mais, ia até ficar meio down com esse menosprezo da língua portuguesa, que é tão rica e bonita. Onde já se viu trocá-la com tal frieza pelo junkie vocabulário norte americano? Já pensei até em fazer um manifesto nas ruas pela valorização da nossa cultura, mas pensei bem e... sei lá, each monkey in it's branch, né. Não vou ficar metendo o meu bedelho. Mas que é de irritar, é. Ainda mais que tem uma gentinha crente que sabe falar um inglês, assim, perfeito. Gentinha trash. Essa vibe de falar inglês tá pegando no mundo todo, tá mais forte que o movimento gay. Mas gay por gay, hoje em dia quase todo mundo é. Se bobear, até o seu cachorro tá falando inglês, afinal, cachorros devem falar várias línguas para se defenderem da possibilidade de virar hot dogs. Ok, trash. Mas enfim, whatever...

sábado, 27 de junho de 2009

Nome

o difícil é te chamar e não saber o seu nome
o psiu que dorme
envergonhado

que deita no colo do sussurro
pede arrego
e se cala

nem é mais pelo dom da fala
ou pelos olhos
que se atrevem a fitar

o difícil é saber o seu nome e não te chamar

Soneto para fazer amanhecer

Pegue uma noite que
se for noite direito
será negra e

Dê uma pincelada azul-anil
Espere secar e quebre um ovo
(antes, por favor, de ser cozido)
espalhando a gema ainda molenga
sobre a superfície azulada da figura

Espere mais um pouco e, quando estiver tudinho pronto,
desenhe as olheiras e o desgrenho dos cabelos
negras e negros

Agora as noites
as negras e frias
viram manhãs
sóbrias manhãs

E você
ainda que um pouco
é Deus.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Mim

Ai de mim que sou louca
Ai de ti que és de mim

terça-feira, 23 de junho de 2009

Nós

Quem somos
agora
nem nós
que nos somos
sabemos

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Rede

Amei-te entre idas e vindas
De um tempo que não foi
No vácuo do intervalo infinito
Jamais anunciado
No discurso vão de um desejo são
Enquanto balançava-me na rede
Invisível
Que eu achava que tu me havia mandado tecer
E que por isso
Teci

domingo, 14 de junho de 2009

Maria Julia

Maria Julia é uma pessoa incrível, tem o corpo torneado, os cabelos longos e vistosos, os olhos escuros e profundos como amêndoas, o rosto como que de uma boneca de porcelana.
Maria Julia é inteligente, além de ter sempre sido a primeira na escola, é muito culta; já leu todos os clássicos romances, dos românticos aos pós-modernos. Tem uma certa preferência pelos realistas, gosta muito da literatura de Chekov.
É cheia de amigos, sociável, simpatissíssima, não há quem não goste de Maria Julia. É muito honesta e não vacila com ninguém, tem sua honra acima de tudo e é uma menina muito correta. Não fuma, não bebe, não fala palavrão, faz curso de inglês, de história da arte, ballet e corre em volta da lagoa três vezes por semana.
Maria Julia nunca se irrita, é super paciente, tem um senso de humor incrível e está sempre com um sorriso estampado no rosto. Não tem TPM; alguns se perguntam até se ela menstrua, porque mulher que é mulher fica puta quando está com TPM!
Maria Julia é moça de família, sempre dorme em casa, não fica por aí até altas horas.
Maria Julia nunca teve nem nunca terá um amor, porque não existe nem nunca existirá ninguém à sua altura.

sábado, 30 de maio de 2009

Véspera

O dia que antecede proíbe a inércia de meu lívido ser
Eu vagueio em volta das níveas paredes
Um véu invisível envolve-me em telha
Desprendo-me insalubremente ansiosa

Amanhã há de chegar e consigo trará novo sol
A lua de hoje me faz mil promessas
Espero brilhante a sina ebriática
Que me tem sob habenas imortais

Se tudo o mais me enerva e tonteia
Existe deveras algo de que temer
O dia que vem ele vai e para onde?
A véspera

Oh, véspera, és áspera

terça-feira, 26 de maio de 2009

Dormi

Eu ainda me lembro de quando andávamos de mãos dadas. Agora quando te vejo minha mão está num canto e a tua noutro. Enquanto recordo-me dos dias tristes que passei ao teu lado, degrado-me lembrando do quão feliz eu era em vivê-los. Sou triste porque não mais os vivo. Sou triste porque não mais vivo dias tristes junto a ti. Tua mão e a minha seguem sós - se não sós, alheias uma à outra. Vivem acompanhadas por outras. Outra para ti que não é a minha, outra para mim que não é a tua. Penso em nós e em como éramos felizmente tristes, em como os nossos lábios curvados para baixo nos faziam plenos. Tudo o que escrevo para mim sobre ti (perceba que não disse para ti) é tão redundante como as imagens de minha mente, feio como a obscuridade do meu desprazer e bobo como eu e tudo o mais. Calcei as minhas sapatilhas de dormir, deitei e... dormi.