você que já veio e você que está

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Amélia e o outro

Uma senhora de uns cabelinhos já brancos e ralos, mas não tão senhora assim a ponto de ter perdido o senso de moda - ela se vestia como uma lady -, sentava-se numa mesa daquelas quadradas de marfim do Batata Inglesa, no Shopping da Gávea. Em sua frente a bandeija, sobre ela uma batata cujo recheio não deu para ver e algo como uma água com gás (poder afirmar isso com certeza seria um tanto psicopata da minha parte. Eu estava só olhando). Eis que havia ali, no outro lugar da mesa de dois, uma nova bandeja. Ela abriu a garrafa d'água, - pera aí. Na ignorância do nome da criatura, vamos chamá-la de Amélia, porque "ela" já está começando a me irritar - destacou os dois copos que se encaixavam um no outro, colocou um sobre a bandeja do lugar vazio e um sobre a própria. A essa altura, eu imaginava coisas como o fato de Amélia ter um amigo imaginário. Louco, mas um tanto simpático de se imaginar. Amélia despejou cuidadosamente o líquido em ambos os copos. Começando pelo dela, colocou um pouco, passou para o outro, derramou mais um tanto, no dela, de novo, mais um gole, no outro bastante mais e, findando a experiência, deixou cair em seu copo as gotículas finais, como que dando nítida prioridade à outra pessoa. Fez tudo isso como um ritual, prestando atenção à cada detalhe, se preocupando com cada minúcia. Enfim, Amélia cruzou os braços sobre as pernas e atentou o olhar, arregalando as vistas e mexendo a cabeça em direções estratégicas. Eu parecia já ter desvendado tudo e - ah, não se fazem mais esposas como antigamente! Eu estava certa de que não demoraria muito para que chegasse o amor de sua vida, e eu teria o privilégio de testemunhar essa incrível ocasião. Afinal, não poderia ser diferente. Passaram-se uns dois minutos e se sentou à mesa uma outra senhora, ocupando o lugar metodicamente preparado. Olharam-se e sorriram. Esses tempos modernos...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Laranjeiras quando passa pela fonte da saudade e tal

cincosetezero querido não
pense que eu deixei de
amar os seus bancos cinzinhas ou
que deixei de poupar
os seus-só-seus doisevinte por vez
é só que venho querendo estar
a algumas laranjeiras
do túnel rebouças.

(mas prometo que é só uma fase)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Querido Orkut (ressurgimento)

Orkut é uma coisa muito curiosa. Quando você se inscreve nesse site de relacionamentos, tem que preencher uma espécie de formulariozinho, no qual estão contidas milhares de perguntinhas escrotas sem as quais a efetivação da sua inscrição não rola. A primeira coisa com que você se depara é o famoso “quem sou eu”, ou “about me”, para os aderentes do american way of life. Em principio, esse espaço era dedicado a frases clichês e totalmente óbvias que resumissem a sua pessoa, por exemplo, “eu sou um cara com muitos defeitos mas também cheio de qualidades, amo a vida e os seus ensinamentos”. Tinham até umas pessoas mais certinhas e especificas que não se contentavam com explicações generalizadas para seres humanos genéricos e faziam questão de colocar “Me chamo Edilza, tenho 1.73, meus dentes são próteses e eu moro de aluguel no banheiro da minha prima Mirtes, da Bahia”, elas preferiam uma coisa mais pessoal. Mas de uns tempos pra cá, as pessoas resolveram inventar uma moda de dar lição de moral ou citar frases filosóficas via perfil do orkut. Aí você acaba lendo coisas mais escrotas ainda, do tipo “Me jogue pedras e eu construirei um castelo”, ou “don’t worry, be happy”. Você desce um pouco os olhos e encontra uma série de perguntas esdrúxulas que não importam pra ninguém, a não ser pra você mesmo, que se diverte passando horas pra responder, já que finalmente “alguém” se importou com o que você gosta ou deixa de gostar. Livros. Uma pessoa que fica o dia inteiro com o cu na cadeira mandando scraps pros outros lá vai ler alguma coisa? As paixões geralmente são o mar, o sol, o surf, a areia – ou seja, a praia, de uma maneira fragmentada –, ou então alguma coisa mais ampla, pra aqueles que fingem ser ardentemente felizes e enchem o perfil de carinhas-sorriso ou o que seja essa porra, e aí preenchem essa perguntinha com respostas como “simplesmente, a vida”. Tem os egocêntricos, que se resumem a responder com uma palavrinha só: “paixões? Eu”. E quando perguntam sobre os filmes? Tem aquelas pessoas que fazem a mais absoluta questão de fazer uma lista quilométrica dos seus filmes preferidos, quando na verdade dois ou três nomes já estariam bastante suficientes. Elas colocam um asterisco e o nome do filme, um asterisco e o nome do filme, um asterisco e o nome do filme, novecentos milhões, trezentos e sessenta e cinco mil asteriscos e os nomes dos filmes. Como se alguém fosse realmente ficar lendo aquilo (o pior é que tem gente que fica). Atividades: o que seriam “atividades”, para o senhor Orkut? E os livros, paixões, filmes, esculturas, passeios de velocípede, animais de estimação, andanças de pedalinho na lagoa? Ainda querem mais atividades? Eles pensam o quê, que nós somos ativos? Hello, nós estamos no orkut! Quando você tem que adicionar também é meio engraçado. Talvez um pouco deplorável. Porque veja bem, quando você adiciona uma pessoa, você esta automaticamente se assumindo um solitário. Você manda alguma coisa tipo um recado, dizendo assim “oi, você se lembra de mim? Eu te adicionei, você pode me aceitar, por favor?”, ou então, pior: “quer seu meu amigo?”. A parte das comunidades também é bem ampla. As primeiras de que você faz parte são, geralmente, as clássicas. Existem várias, mais a mais legal de todas é aquela “nunca acabei com uma borracha”. Algo bastante construtivo, como sempre. Depois você começa a procurar alguma comunidade que tenha a ver com você, e acaba entrando em alguma tipo “Me apaixonei pela pessoa errada”. A medida em que você vai zanzando pelo site, repara na vastidão que é o acervo de comunidades existentes. E a diversidade é uma coisa absurda. Você clica em uma e vai chegando nas outras, através das comunidades relacionadas. Existem varias linhas de comunidades no orkut. A romântica, pra cornos e mal amados, do tipo “Me apaixonei pela pessoa errada”,“Será que você não vê que eu te amo?”, “O que eu faço pra você me notar?”, ou então “Estoy aqui, querendo-te”. A de auto-ajuda, como “Seja sempre você”, “Eu sou mais do que isso”, “Eu? Me abater? Nunca!”; a de intelectuais anti-sociais e totalmente cultos, tipo “A arte da Prolixidade”, “Good Writing is Sexy”, “Eu sou um personagem de Nelson”; a de recalcadas e/ ou trocadas por alguma loira mais gostosa, como “Eu Odeio Aquela Vaca” ou “Me bloqueia que eu te excluo”; a de ex-excluidas-agora-super-pops, como por exemplo “Baby baby, agora que cresci você quer me namorar”, “You are so last week” e “Vou pensar se te dou meu número”; a de gordos conformados, “Sou gordinho mas sou feliz”; a de gordos crentes na possibilidade de um futuro emagrecimento, “Fashion Week 2010, aí vou eu”.
O pior é que tem gente que perde tempo com essa merda. O pior é que tem gente que perde tempo lendo essa merda. O pior é que tem gente que perde tempo falando de gente que perde tempo lendo essa merda.

domingo, 12 de julho de 2009

Cabô

não fossem os desdizeres
dessa boca que me disse
(mirei a tua em beijo
o quê, não posso dizer
sorri)
pois disse se eu dissesse
me maldiria e
esta boca ela mesma
estamos no ponto em que
teria-me dito as doçuras
mais doces que eu ouviria
olhar já satisfaz
muito verdes
a maldade
os teus belos olhos
que o vento traz
são como a rodrigo
será ela tão bela
de freitas
quanto a beleza
tão
só que transparentes
triste quanto a tristeza
ou apenas
eu vivo
má?
e enquanto
isso eu morro
de
o amor nosso é o só
saudades
o só eu
e o cúmulo
ser sem ti
é a tua presença
é como ser contigo
ausente
só que preto

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Desabafo

Calar a boca é sempre muito bonito. As pessoas costumam perder essa maravilhosa oportunidade. Vamos lá, pensa em uma coisa específica que você tenha feito hoje, alguma situação pela qual tenha passado. Pensa no que você disse enquanto estava nessa circustância. Agora pensa bem: não seria bem melhor se você não tivesse dito isso?

domingo, 5 de julho de 2009

Sábado de manhã (ontem de hoje)

Meu irmão me deu um livro muito bom na semana passada. Falava muito sobre a observação. E eu, observadora de natureza, fiquei muito empolgada (talvez mais do que o suficiente) com isso. Ontem, sábado, eu acordei nesse tempo frio e não tinha nada para fazer. Resolvi colocar a minha calça bege larga, o meu all star vermelho e ir com a blusa do Dragão Verde que faço de pijama até a praia. Às vezes eu acordo assim meio inspirada. Praia no frio, de pijama, com um caderno e uma caneta. Sentei no banco e lá fui eu: comecei. Olhei, olhei, olhei, pra lá, pra cá, gente feia, gente bonita, pé, cabelo, como essa gente anda estranho!, gente brega, um gato, criança chata, cachorro, cara do biscoito globo, mais gente, mais gente, mar, mãos! Tenho prestado muita atenção à mãos, ultimamente. É bom isso. As pessoas dizem muito com as mãos (além de fazerem, é claro). Ao som dos Rolling Stones, comecei a anotar tudo tudo tudo. Mãos que andam junto com o corpo, que acompanham o movimento do pulso, mãos de viado, mãos que cutucam, que se mexem esquisito, mãos de velhinhos, mãos do caralho a quatro. Mãos, mãos, muitas mãos. Eis que se passou um tempitcho e eu percebi uma mesa do lado do meu banquinho solitário, na qual estavam umas cinco pessoas sentadas. De repente começo a ouvir umas risadas: estavam rindo de mim, os filhos da puta. Mas também eu não posso culpar os bichinhos. De fato deve ser engraçado ver uma pessoa olhando pros outros, rindo e escrevendo - sabe-se lá o quê. Enfim, foda-se. Nada mais divertido do que andar do Leblon até o Jardim Botânico, passar no Tablado e... continuar peregrinando.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Amarílio

O amarelo que amarela
A minha vida
É da mesma cor amarelo-ferida
Da ferida
Que você feriu
Em mim