Eu sabia que já estava tarde. E que isso era coisa de puta. Estava tarde, isso era coisa de puta, eu queria ir assim mesmo, eu fui. Coloquei o sutiã por baixo da blusa do pijama, troquei de calça, enfiei um chinelo no pé e fui. Ir largada é bom. Parece que você ta cagando. Parecer que você ta cagando é ótimo. Mas não sem antes passar um blush e uma pitada de pó na espinha que eu tenho em cima do queixo que já é quase da família. Aí tá, fui mesmo agora. Rodei a chave devagarinho, que se a minha mãe acordasse eu tava totalmente fudida. Nisso, o meu coração lá, né? Tipo, quase uma rave, para a qual ele resolveu convidar a minha barriga também. Fofo. Até o outro lado da rua eu fui saltitando em silêncio – se eu já não estava mais em casa não estava importando muito. Chovendo, né. Chovendo pra caralho – porra, que merda, juro cara, eu sou uma retardada mesmo, por que eu faço essas coisas? Super desnecessário. Eu viveria muito bem sem essa. Eu podia muito bem estar dormindo fofinha na minha cama. Eu devia era ter. Ok. Cheguei. Era rápido mesmo, passos, só. Toquei a campainha, boa noite. Noite não, dia. Dia, não. Noite, que ainda não dormi, então é noite, né moço? Céus. Que trash. Então, eu vou pra casa do Fred. É, EU FUI PRA CASA DO FRED, A MESMA CASA EM QUE EU DISSE ANTEONTEM QUE NUNCA MAIS PISARIA, O MESMO FRED QUE EU DISSE ANTEONTEM QUE NUNCA MAIS PEGARIA. Qual o seu nome, minha filha? O porteiro já zumbi, tadinho. Também, né, três horas da manhã lá é hora de se aparecer em casa de homem? Aliás, de qualquer pessoa. Mas, de homem! Ai, meu Deus, que putaria. Beatriz, moço. Diz Bia. Bia rima com putaria. Que rima com corria. Que era isso que eu devia estar fazendo agora. Ta bom, menina, pode subir. Ok. Ok. Ok. Ok. Ah, ok, obrigada! Agora eu tenho que subir. Ta ok. Eu tenho total controle sobre o ângulo de trezentos e sessenta graus a minha volta. Eu sou a única e soberana dona de mim mesma, oi Fred, tudo bem? Shit. Carráleo. Fudió, fudió, não, não senhora, a senhora é uma adolescente completamente madura e crescida cujos peitos são enormes e por isso nada pode dar errado. Não me pergunte qual a relação do tamanho dos meus peitos com a funcionalidade das coisas, mas para alguma porra estes dois deviam servir, e ESSE ERA O MOMENTO. O Fred super foi simpático, super me chamou pro quarto dele e eu super não sabia o que eu tava fazendo ali. Você é linda. É, Fred, você quer me comer, eu sei, pode pular isso. É, Fred, você comentou. Não, Bia, sério, você é muito gata. Ta, beleza, obrigada. Aí ele colocou a mão na minha perna e tal. Eu tensa, né. Nunca tinha ido para a casa de um garoto tipo ÀS TRÊS DA MANHÃ. Alôou, cúmulo da putaria. Aí ta, beleza, normalzão, a gente se pegou, falou umas coisas meio podres hahahaha, mas tipo, engraçadonas, e aí ta, eu dei. Eu dei pro Fred. Ah, dei, né, gente. Foi iraaado. Me senti completa, plena, sabe? Total uma outra pessoa. Eu nunca me senti tão adulta, parecia que eu tinha crescido, sei lá, uns trinta anos.
Mas a mamãe super não pode saber.
você que já veio e você que está
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Os assassinatos da bonita Londres
Na bonita Londres, quase todo o frio é possível. E Jackhile sabia disso.
Jackhile adorava charutos de framboesa. Isso é algo de importante.
Todo dia de manhã, Jackhile dava três voltas para a esquerda em seu quarto e agachava quinze vezes, tocando assim as mãos no chão de forma que alongasse seus glúteos. Ela abria o armário, escolhia a sua roupa, que era quase sempre um casaco três quartos de alguma cor que doesse bastante os olhos. Calçava o par de sapatos ideal e fazia da mesma forma com a peruca, que haveria de ser colorida identicamente à veste.
Geralmente colocava os pés para fora do apartamento magnificamente decorado por Grettha Louz, a mais famosa decoradora londrina, e sentia frio. Mas não voltava para colocar meias-calças, afinal, ela não tinha tempo, nunca. Em vez disso, para aquecer-se, acendia o seu charuto preferido enquanto andava apressadamente: não que isso ficasse feio, ela o fazia com uma elegância impar. Alias, vale lembrar que Jackhile era, muito provavelmente, a mulher mais bonita de toda Londres. Era impossível não reparar em seus cabelos e olhos negros que saltavam, como em relevo, desvencilhando-se de toda a alvura da face. E, logicamente, não podemos esquecer-nos de citar o carisma da mulher, que era algo de fato invejável. Enquanto ela andava, acompanhada pelo balançar de seus vastos e cartesianos quadris, aproximava-se cada vez mais da Freddie’s, coisa que provocaria uma certa reviravolta em seu estômago, não fosse a habilidade de lidar com situações que pareceriam dificílimas para seres humanos genéricos com que ela nascera. Talvez devamos ambientar a Freddie’s para que seja possível a compreensão de pelo menos um terço do drama. A Freddie’s, com esse nome de loja de roupas de esporte ou lanchonete cool da alta burguesia inglesa, era um necrotério. Jackhile freqüentara o local todos os dias durante quatro meses, religiosamente, chegando pelo mais cedo da manhã e deixando-o à tardinha, naquele meio tempo em que ainda não escureceu mas já não está claro. Seria interessante divulgar também a informação de que Jackhile tratava-se da mais renomada detetive da cidade londrina. A primeira vez em que ela pisou com os seus chiquérrimos sapatos no lugar aconteceu porque a procurou Donavan, homem dos traços grosseiros e marcantes que desconfiava que sua mulher estivesse tendo um caso com o caseiro de sua mansão. Sim, é verdade que para descobrir que a sua mulher está tendo um caso com o caseiro basta prensá-lo na parede e pressionar o seu pescoço suficientemente forte de forma que ele confesse o adultério; não que Donavan não tivesse a base física necessária para isso, mas ele possuía diferentes intenções além desta. Basicamente na primeira vez em que abriu a boca para falar, a detetive pôde perceber alguns sinais um tanto quanto inusitados a respeito daquela figura, entre um e outro flerte. No final do encontro, todos os livros sobre física quântica que Jackhile lia como passatempo e os porta-retratos emoldurando fotos em que ela sempre aparecia sozinha e fatal encontravam-se desleixadamente jogados no chão, pois a mesa estava demasiadamente ocupada apoiando os corpos dos dois, que, a essa altura, faziam o sexo mais agressivo e louco de suas vidas. Jackhile não tinha o costume de se prestar a esse tipo de papel, mas a esse homem, em especial, ela não pestanejou antes de ceder à vontade de se emprestar por uns dez minutos. Como pensava que seria. Mas não foi, ou foi, só que por algo mais do que apenas uma dezena de minutos. A estupenda fèmme fatale que representava Jackhile rendeu-se ao mal mais necessário que paira sobre a face da terra: os encantos (ou, no caso, desencantos) de um homem de pulso. Ele a chamava puxando pelos cabelos, beijava-a rápida e fortemente, segurava-a pelo braço como uma mãe raivosa brigando com o seu filho. Já era tarde para que Jackhile se livrasse de Donavan quando percebeu que ele se tratava de um psicopata, o que ocorreu quando ele assassinou sua mulher e o caseiro, sem ter certeza alguma de que a traição fosse verdade. Jackhile viu-se pela primeira vez sem saber o que fazer. A relação dos dois já havia avançado o suficiente para que ele se conformasse caso ela quisesse a separação sem dar motivos convincentes, afinal, ela temia por sua vida. Jackhile não encontrou outro jeito a sair desta encruzilhada a não ser cometer um homicídio contra o ex-cliente que tomara proporções, as mais sórdidas, em sua vida. O corpo, ela queimara no quintal da casa que pertencera a uma tia já morta, no interior, e que ela usava como depósito de evidências. Perceba que essas heranças acabam tendo funcionalidade. Fez isto entre uma lágrima de pavor e um suspiro de alívio. Tudo com o cuidado necessário para que não fosse suja a camurça do Chanel amarelo que ela usava no dia do assassinato. Nunca houve suspeitas acerca da morte de Donavan. Até porque ele não deixara ninguém nesta esfera para sentir a sua falta. Jackhile precisou comparecer ao necrotério para deixar as cinzas, alegando tê-las encontrado em um banco de praça. E ia até a Freddie’s, rezar, religiosamente, todos os dias, durante quatro meses, chegando pelo mais cedo da manhã e deixando-a à tardinha. O que o cliente faz com a pessoa de quem suspeita não é, em nenhuma instancia e sob nenhuma hipótese, responsabilidade do detetive. Tampouco o que o detetive faz com o cliente.
Jackhile adorava charutos de framboesa. Isso é algo de importante.
Todo dia de manhã, Jackhile dava três voltas para a esquerda em seu quarto e agachava quinze vezes, tocando assim as mãos no chão de forma que alongasse seus glúteos. Ela abria o armário, escolhia a sua roupa, que era quase sempre um casaco três quartos de alguma cor que doesse bastante os olhos. Calçava o par de sapatos ideal e fazia da mesma forma com a peruca, que haveria de ser colorida identicamente à veste.
Geralmente colocava os pés para fora do apartamento magnificamente decorado por Grettha Louz, a mais famosa decoradora londrina, e sentia frio. Mas não voltava para colocar meias-calças, afinal, ela não tinha tempo, nunca. Em vez disso, para aquecer-se, acendia o seu charuto preferido enquanto andava apressadamente: não que isso ficasse feio, ela o fazia com uma elegância impar. Alias, vale lembrar que Jackhile era, muito provavelmente, a mulher mais bonita de toda Londres. Era impossível não reparar em seus cabelos e olhos negros que saltavam, como em relevo, desvencilhando-se de toda a alvura da face. E, logicamente, não podemos esquecer-nos de citar o carisma da mulher, que era algo de fato invejável. Enquanto ela andava, acompanhada pelo balançar de seus vastos e cartesianos quadris, aproximava-se cada vez mais da Freddie’s, coisa que provocaria uma certa reviravolta em seu estômago, não fosse a habilidade de lidar com situações que pareceriam dificílimas para seres humanos genéricos com que ela nascera. Talvez devamos ambientar a Freddie’s para que seja possível a compreensão de pelo menos um terço do drama. A Freddie’s, com esse nome de loja de roupas de esporte ou lanchonete cool da alta burguesia inglesa, era um necrotério. Jackhile freqüentara o local todos os dias durante quatro meses, religiosamente, chegando pelo mais cedo da manhã e deixando-o à tardinha, naquele meio tempo em que ainda não escureceu mas já não está claro. Seria interessante divulgar também a informação de que Jackhile tratava-se da mais renomada detetive da cidade londrina. A primeira vez em que ela pisou com os seus chiquérrimos sapatos no lugar aconteceu porque a procurou Donavan, homem dos traços grosseiros e marcantes que desconfiava que sua mulher estivesse tendo um caso com o caseiro de sua mansão. Sim, é verdade que para descobrir que a sua mulher está tendo um caso com o caseiro basta prensá-lo na parede e pressionar o seu pescoço suficientemente forte de forma que ele confesse o adultério; não que Donavan não tivesse a base física necessária para isso, mas ele possuía diferentes intenções além desta. Basicamente na primeira vez em que abriu a boca para falar, a detetive pôde perceber alguns sinais um tanto quanto inusitados a respeito daquela figura, entre um e outro flerte. No final do encontro, todos os livros sobre física quântica que Jackhile lia como passatempo e os porta-retratos emoldurando fotos em que ela sempre aparecia sozinha e fatal encontravam-se desleixadamente jogados no chão, pois a mesa estava demasiadamente ocupada apoiando os corpos dos dois, que, a essa altura, faziam o sexo mais agressivo e louco de suas vidas. Jackhile não tinha o costume de se prestar a esse tipo de papel, mas a esse homem, em especial, ela não pestanejou antes de ceder à vontade de se emprestar por uns dez minutos. Como pensava que seria. Mas não foi, ou foi, só que por algo mais do que apenas uma dezena de minutos. A estupenda fèmme fatale que representava Jackhile rendeu-se ao mal mais necessário que paira sobre a face da terra: os encantos (ou, no caso, desencantos) de um homem de pulso. Ele a chamava puxando pelos cabelos, beijava-a rápida e fortemente, segurava-a pelo braço como uma mãe raivosa brigando com o seu filho. Já era tarde para que Jackhile se livrasse de Donavan quando percebeu que ele se tratava de um psicopata, o que ocorreu quando ele assassinou sua mulher e o caseiro, sem ter certeza alguma de que a traição fosse verdade. Jackhile viu-se pela primeira vez sem saber o que fazer. A relação dos dois já havia avançado o suficiente para que ele se conformasse caso ela quisesse a separação sem dar motivos convincentes, afinal, ela temia por sua vida. Jackhile não encontrou outro jeito a sair desta encruzilhada a não ser cometer um homicídio contra o ex-cliente que tomara proporções, as mais sórdidas, em sua vida. O corpo, ela queimara no quintal da casa que pertencera a uma tia já morta, no interior, e que ela usava como depósito de evidências. Perceba que essas heranças acabam tendo funcionalidade. Fez isto entre uma lágrima de pavor e um suspiro de alívio. Tudo com o cuidado necessário para que não fosse suja a camurça do Chanel amarelo que ela usava no dia do assassinato. Nunca houve suspeitas acerca da morte de Donavan. Até porque ele não deixara ninguém nesta esfera para sentir a sua falta. Jackhile precisou comparecer ao necrotério para deixar as cinzas, alegando tê-las encontrado em um banco de praça. E ia até a Freddie’s, rezar, religiosamente, todos os dias, durante quatro meses, chegando pelo mais cedo da manhã e deixando-a à tardinha. O que o cliente faz com a pessoa de quem suspeita não é, em nenhuma instancia e sob nenhuma hipótese, responsabilidade do detetive. Tampouco o que o detetive faz com o cliente.
sábado, 22 de agosto de 2009
fera
me matarei de abrir e fechar olhos até q chore
teu lábio beijará meu cabelo
até q namorem
minha unha q arranha tua cintura
tira teu cinto meu dedo deixa as pernas tuas nuas
enroscam as pernas minhas nas tuas as duas são uma
sós de momento estão os corpos
enlaçam-se rumo a copos
e copos e copos e copos
e copos e copos
e copos
as mãos q amaciam arrasam destroem
as mesmas q amam ABOLEM
as mesmas do toque DEVASSO
são fruto de 1 só embalo -
e quatro braços
falsa carícia sutil q mascara
a fera q há entre os dedos, devora,
engana por 01 ou 90 segundos
a fúria q cospe no agora
no agora momento de uivar
o fazer, q se fez, se desfez, e se foi
o autor terminou d’a história contar
o ator terminou de fingir e se foi.
teu lábio beijará meu cabelo
até q namorem
minha unha q arranha tua cintura
tira teu cinto meu dedo deixa as pernas tuas nuas
enroscam as pernas minhas nas tuas as duas são uma
sós de momento estão os corpos
enlaçam-se rumo a copos
e copos e copos e copos
e copos e copos
e copos
as mãos q amaciam arrasam destroem
as mesmas q amam ABOLEM
as mesmas do toque DEVASSO
são fruto de 1 só embalo -
e quatro braços
falsa carícia sutil q mascara
a fera q há entre os dedos, devora,
engana por 01 ou 90 segundos
a fúria q cospe no agora
no agora momento de uivar
o fazer, q se fez, se desfez, e se foi
o autor terminou d’a história contar
o ator terminou de fingir e se foi.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Rivaldo saia desse lago

Eu disse uma, disse duas, disse três vezes:
- Rivaldo, saia desse lago.
O menino não saia, o menino deu pra se enfiar no lago e não sair mais, agora. Ele está com essa cisma. Outro dia chegou em casa com uma asa entre os dentes.
Eu disse:
- O que é isso, menino?
O menino me disse na maior naturalidade:
- Asa de mosca, mamãe.
- Asa de mosca, ô menino? Foi isso mesmo que eu ouvi, o que você falou? Deixe eu ver isso cá. Virgem santa. É asa e é de mosca mesmo. Mas tu não tem nojo não, hein?
- A mãe tem nojo de rapadura?
- Rapadura é um negócio, asa de mosca é outro. Outro negócio bastante do nojento.
- Mas a mãe, se tivesse nojo de rapadura, comia? Não comia. Eu se tivesse nojo mosca, não comia. Não tenho, por isso como.
- Mas o que está aí é a asa! Se fosse a mosca eu entendia. Mas a asa?
- É que a asa ficou presa no dente. A mosca mesmo eu comi, já.
- Comeste a mosca?!
- A mãe não disse que entendia?
- Entendia se estivesse de molecagem! E se agora isso dá náusea?
- Dá não.
- Como é que tu sabe, ô menino?
- Que eu já comi muito disso.
- Como é que é?
- Comi, ué.
- Virgem santa! A senhora me traduza! Se isso for mensagem de Deus, a senhora me traduza! Que estou prestes a um desmaio!
- A mãe vai desmaiar? É providente eu já ir chamando a ambulância?
- Está doidinho para ver tua mãe entrevada numa cama de hospital, não é, seu moleque?
-Melhor que ver a mãe mortinha no chão!
- Como é que é?
- Que se eu chamo agora e a mãe ainda não desmaiou, a ambulância chegando em dez minutos, dá tempo de ela já ter desmaiado e não demora tanto a ponto de já ter morrido!
- É uma boa matemática. Ligue aí. Espere, Rivaldo!
- Mais um bocado? A mãe ainda não está vendo tudo branco?
- Pare de lezeira, menino retardado. Vá escovar os dentes que está com bafo de mosca, e, depois que acabar, você vai escrever vinte e sete vezes no papel que não vai comer mais moscas.
- Escrever que não vou comer mais moscas?
- Pois sim.
- E no que isso vai ter adianto, mãe?
- Que assim tu vai aprender o negócio.
- Vou aprender a escrever, mas comer, eu vou continuar comendo. Eu vou é arrumar uma tendinite. Vou ter que ir para o hospital e a conta quem terá que pagar será a senhora minha mãe.
- Ah é, mesmo, engraçadinho? E quem foi que disse isso?
- Copiei de ninguém não.
- Como é que é?
- Eu é que disse mesmo.
- Pois eu digo que não vai a hospital nenhum. E que se for, eu não dou um centavo, nem entro...
- Isso não vai ter como, mãe.
- E por que é isso?
- Porque eu tenho doze anos. Se eu entro no hospital sem mãe, perguntam cadê a mãe, se eu minto e digo que não tenho mãe, paro num juizado de menores.
- E ainda não foi escovar o dente por causa de quê?
- Por causa da senhora minha mãe que está conversando comigo.
- Em falar nisso, acho bom dizer logo para o seu pai que não é mais preciso comprar de comer para você. Que agora o seu negócio é mosca.
- Obrigado, mãe.
- Obrigado?
- Foi isso que eu falei, foi não?
- Obrigado pelo quê? Menino agora agradece castigo?
- Castigo por causa de quê?
- Ouviu que agora só vai poder comer mosca não?
- Se não ouvi!
- E não está deprimido? Vai passar fome, menino. Fica deprimido.
- Mosca é suprimento. Deixa passar fome não. E é uma gostosura, é crocante por fora e macia por dentro, a combinação perfeita de sabores, devia era ser a próxima tendência culinária.
- E é bom assim isso aí, mesmo, é?
- Se é! E muito nutritivo.
- De certo isto avalora.
- Valoriza, mãe.
- Pois foi o que eu disse, avaloriza.
- E ainda por cima diz que faz bem pro cabelo.
- Pro cabelo, é?
- Diz que é melhor que babosa.
- Diz, é?
- E que as unhas não quebram mas nem se a gente quiser cortar.
- Fica forte assim, é?
- Ô, se fica!
- E nesse lago aí que você se enfia tem bastante mosca, é?
- Se tem!
- E os sapos não ficam danados de você roubar as moscas deles, não?
- Ficam nada. Tem mosca pra todo mundo.
- E tem pra mim, tem?
- Rivaldo, saia desse lago.
O menino não saia, o menino deu pra se enfiar no lago e não sair mais, agora. Ele está com essa cisma. Outro dia chegou em casa com uma asa entre os dentes.
Eu disse:
- O que é isso, menino?
O menino me disse na maior naturalidade:
- Asa de mosca, mamãe.
- Asa de mosca, ô menino? Foi isso mesmo que eu ouvi, o que você falou? Deixe eu ver isso cá. Virgem santa. É asa e é de mosca mesmo. Mas tu não tem nojo não, hein?
- A mãe tem nojo de rapadura?
- Rapadura é um negócio, asa de mosca é outro. Outro negócio bastante do nojento.
- Mas a mãe, se tivesse nojo de rapadura, comia? Não comia. Eu se tivesse nojo mosca, não comia. Não tenho, por isso como.
- Mas o que está aí é a asa! Se fosse a mosca eu entendia. Mas a asa?
- É que a asa ficou presa no dente. A mosca mesmo eu comi, já.
- Comeste a mosca?!
- A mãe não disse que entendia?
- Entendia se estivesse de molecagem! E se agora isso dá náusea?
- Dá não.
- Como é que tu sabe, ô menino?
- Que eu já comi muito disso.
- Como é que é?
- Comi, ué.
- Virgem santa! A senhora me traduza! Se isso for mensagem de Deus, a senhora me traduza! Que estou prestes a um desmaio!
- A mãe vai desmaiar? É providente eu já ir chamando a ambulância?
- Está doidinho para ver tua mãe entrevada numa cama de hospital, não é, seu moleque?
-Melhor que ver a mãe mortinha no chão!
- Como é que é?
- Que se eu chamo agora e a mãe ainda não desmaiou, a ambulância chegando em dez minutos, dá tempo de ela já ter desmaiado e não demora tanto a ponto de já ter morrido!
- É uma boa matemática. Ligue aí. Espere, Rivaldo!
- Mais um bocado? A mãe ainda não está vendo tudo branco?
- Pare de lezeira, menino retardado. Vá escovar os dentes que está com bafo de mosca, e, depois que acabar, você vai escrever vinte e sete vezes no papel que não vai comer mais moscas.
- Escrever que não vou comer mais moscas?
- Pois sim.
- E no que isso vai ter adianto, mãe?
- Que assim tu vai aprender o negócio.
- Vou aprender a escrever, mas comer, eu vou continuar comendo. Eu vou é arrumar uma tendinite. Vou ter que ir para o hospital e a conta quem terá que pagar será a senhora minha mãe.
- Ah é, mesmo, engraçadinho? E quem foi que disse isso?
- Copiei de ninguém não.
- Como é que é?
- Eu é que disse mesmo.
- Pois eu digo que não vai a hospital nenhum. E que se for, eu não dou um centavo, nem entro...
- Isso não vai ter como, mãe.
- E por que é isso?
- Porque eu tenho doze anos. Se eu entro no hospital sem mãe, perguntam cadê a mãe, se eu minto e digo que não tenho mãe, paro num juizado de menores.
- E ainda não foi escovar o dente por causa de quê?
- Por causa da senhora minha mãe que está conversando comigo.
- Em falar nisso, acho bom dizer logo para o seu pai que não é mais preciso comprar de comer para você. Que agora o seu negócio é mosca.
- Obrigado, mãe.
- Obrigado?
- Foi isso que eu falei, foi não?
- Obrigado pelo quê? Menino agora agradece castigo?
- Castigo por causa de quê?
- Ouviu que agora só vai poder comer mosca não?
- Se não ouvi!
- E não está deprimido? Vai passar fome, menino. Fica deprimido.
- Mosca é suprimento. Deixa passar fome não. E é uma gostosura, é crocante por fora e macia por dentro, a combinação perfeita de sabores, devia era ser a próxima tendência culinária.
- E é bom assim isso aí, mesmo, é?
- Se é! E muito nutritivo.
- De certo isto avalora.
- Valoriza, mãe.
- Pois foi o que eu disse, avaloriza.
- E ainda por cima diz que faz bem pro cabelo.
- Pro cabelo, é?
- Diz que é melhor que babosa.
- Diz, é?
- E que as unhas não quebram mas nem se a gente quiser cortar.
- Fica forte assim, é?
- Ô, se fica!
- E nesse lago aí que você se enfia tem bastante mosca, é?
- Se tem!
- E os sapos não ficam danados de você roubar as moscas deles, não?
- Ficam nada. Tem mosca pra todo mundo.
- E tem pra mim, tem?
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Podemos conversar ou Lápis de cera
- Podemos conversar?
- Malditos de nós que, como primeiro erro, fomos inventar de nos comunicar através da fala. Isso, cá entre nós – essas conversas – são um inferno. Entendi quando me disseste ‘tchau’. Ouvi com calma, ainda que tremessem-me as pernas de modo a quase não me permitirem a permanência sobre os pés. E me doía por dentro tanto quanto a boca minha não poderia pronunciar nenhuma palavra, fazendo o meu cérebro temer que este efeito se prolongasse para sempre. Isso seria trágico, afinal, eu sempre adorei falar. Eu simplesmente não conseguia, era mais forte do que eu, o que não era difícil, sendo ou estando eu tão fraca. E francamente, eu não creio que você tenha errado. Peço desculpas pelo tempo em que não compreendi os seus motivos. Agora os compreendo inteiramente. Espero que me olhes ainda com os olhos de antes, os sutis e leves olhos que me olhavam com um brilho de ternura, que eu nunca vi coisa igual. Sou honesta quando digo que te amo, e mesmo que não seja da forma que amei um dia, isso é só porque o tempo se encarrega de desfazer esses sentimentos a toda hora, mesmo. Inda bem, não é? É natural, nada pessoal. Mas se continuássemos andando por aí de mãos dadas, o meu sentimento por ti certamente ainda perduraria. E por muito tempo, anos, quem sabe. Infeliz do destino, se é que ele existe, com essa cisma de interromper. Infelizes de nós - não digo eu e você, mas nós - humanos, que nos permitimos negligenciar a beleza do sentimento que nos bate a porta: o amor. Fechamos os olhos para a sua existência, como que ele fosse voltar duas ou três semanas depois. Como que pudéssemos dar-lhe férias, com a certeza de ele retornaria intacto, bonito da mesma forma, pleno como outrora. Mas não é assim. É pura ilusão acharmos que dessa forma, também, conseguiremos ser mais felizes. Babaquice, eu diria. É impressionantemente burro de nossa parte – mais uma vez, generalizo em torno dos humanos. Malditos de nós que, como primeiro erro, fomos inventar de nos comunicar através da fala. Tudo seria tão mais fácil através de lápis de cera! Imagina, tu ias desenhar dois bonecos palito cor de rosa, tá?, um de saia e laço na cabeça e um peladinho, que seriam ela e você, respectivamente. Próximos um do outro o suficiente para que desse a entender que aquilo era um casal. E aí você pegaria o lápis preto e desenharia um terceiro boneco, também de saia, mas sem laço algum no cabelo, cuja posição fosse algo semelhante a um ataque aos dois primeiros. E isso seria a sua belíssima representação de como você não me quer mais e está total e completamente me dando um pé na bunda! Mas não seria mesmo maravilhoso? Eu, neste momento, entenderia e sairia andando. Triste ou não, puta ou não, tanto faria, eu não saberia reclamar mesmo. O máximo que talvez e, muito talvez, eu fizesse, seria desenhar um coração vermelho entre o segundo e o terceiro bonecos e rabiscar um xis no primeiro. Mas também não adiantaria, já que você rasgaria o meu desenho. E eu me sentiria o mesmo lixo que me senti quando tu me disseste tchau. Pensando bem, acho que não ia adiantar muita coisa. Podemos conversar.
- Malditos de nós que, como primeiro erro, fomos inventar de nos comunicar através da fala. Isso, cá entre nós – essas conversas – são um inferno. Entendi quando me disseste ‘tchau’. Ouvi com calma, ainda que tremessem-me as pernas de modo a quase não me permitirem a permanência sobre os pés. E me doía por dentro tanto quanto a boca minha não poderia pronunciar nenhuma palavra, fazendo o meu cérebro temer que este efeito se prolongasse para sempre. Isso seria trágico, afinal, eu sempre adorei falar. Eu simplesmente não conseguia, era mais forte do que eu, o que não era difícil, sendo ou estando eu tão fraca. E francamente, eu não creio que você tenha errado. Peço desculpas pelo tempo em que não compreendi os seus motivos. Agora os compreendo inteiramente. Espero que me olhes ainda com os olhos de antes, os sutis e leves olhos que me olhavam com um brilho de ternura, que eu nunca vi coisa igual. Sou honesta quando digo que te amo, e mesmo que não seja da forma que amei um dia, isso é só porque o tempo se encarrega de desfazer esses sentimentos a toda hora, mesmo. Inda bem, não é? É natural, nada pessoal. Mas se continuássemos andando por aí de mãos dadas, o meu sentimento por ti certamente ainda perduraria. E por muito tempo, anos, quem sabe. Infeliz do destino, se é que ele existe, com essa cisma de interromper. Infelizes de nós - não digo eu e você, mas nós - humanos, que nos permitimos negligenciar a beleza do sentimento que nos bate a porta: o amor. Fechamos os olhos para a sua existência, como que ele fosse voltar duas ou três semanas depois. Como que pudéssemos dar-lhe férias, com a certeza de ele retornaria intacto, bonito da mesma forma, pleno como outrora. Mas não é assim. É pura ilusão acharmos que dessa forma, também, conseguiremos ser mais felizes. Babaquice, eu diria. É impressionantemente burro de nossa parte – mais uma vez, generalizo em torno dos humanos. Malditos de nós que, como primeiro erro, fomos inventar de nos comunicar através da fala. Tudo seria tão mais fácil através de lápis de cera! Imagina, tu ias desenhar dois bonecos palito cor de rosa, tá?, um de saia e laço na cabeça e um peladinho, que seriam ela e você, respectivamente. Próximos um do outro o suficiente para que desse a entender que aquilo era um casal. E aí você pegaria o lápis preto e desenharia um terceiro boneco, também de saia, mas sem laço algum no cabelo, cuja posição fosse algo semelhante a um ataque aos dois primeiros. E isso seria a sua belíssima representação de como você não me quer mais e está total e completamente me dando um pé na bunda! Mas não seria mesmo maravilhoso? Eu, neste momento, entenderia e sairia andando. Triste ou não, puta ou não, tanto faria, eu não saberia reclamar mesmo. O máximo que talvez e, muito talvez, eu fizesse, seria desenhar um coração vermelho entre o segundo e o terceiro bonecos e rabiscar um xis no primeiro. Mas também não adiantaria, já que você rasgaria o meu desenho. E eu me sentiria o mesmo lixo que me senti quando tu me disseste tchau. Pensando bem, acho que não ia adiantar muita coisa. Podemos conversar.
domingo, 16 de agosto de 2009
Pequena filosofia aquariana
É tempo dos olhos fecharem ao sol
É era de aquário
As roupas formigam procuram saída
O livre do rosto passeia no seio
O bom é que o vento nos venta para lá
Bagunça-me a veste enquanto caminho
O caminho tu não te preocupes com ele
É rosa
Na era de antes roxa como era
Não era possível viver de sorriso
Não era possível sorrir de viver
Só de viver e de nada além, simples
Que isso é de quando em vez bom
O bom é que quando uma vez
Não cansa
E vez em quando três
Mês em mês o sorriso se esquiva
Todo o amor se degrada e agora
Lembramo-nos sós como em fato
Nós somos
É pouco pelo tempo e pouco pelos
Ares que arrepiam os pêlos
As vezes que julgamos beijos, selos
Às vezes a vida nos corta os cabelos
Tirando de nós a força de sermos
Quem so-nha-mos
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Bolo de noiva ou O atrasado
Observação: há duas noites atrás, sonhei que visitava o blog de uma amiga minha e que nele lia o texto mais genial que eu já havia lido em toda a minha vida. Foi bem esquisito, mas, quando acordei, eu me lembrava de muito do texto, do título e ainda guardava na memória, agora consciente, cada ceninha que em sonho eu tinha visualizado. Bizarro, né? Achei interessante postar o texto, ainda que não seja de nem um décimo da genialidade do "original".
Se chama Bolo de noiva ou O atrasado.
Eu gostaria que ele assumisse uma posição digna pelo menos uma vez na vida. Que assumisse um compromisso e que honrasse com ele. Que. Que. Coisa mesmo de homem, sabe?
Ele não conseguiria.
Marcamos no café.
- Me espere no café anexo ao Clube Militar, minha querida.
- Espero, mas a que horas?
- Não sei.
- Quer que então eu chegue pela manhã e te espere o dia todo?
Ele não era possível. O tom aqui seria sarcástico, não fosse a minha real submissão desesperada.
- Ao meio dia está bom?
Ao meio dia estaria ótimo, caso ele tivesse aparecido ao meio dia.
Ele sempre quis ter filhos.
Eu nunca quis ter filhos.
Filhos para nós representariam um enorme problema.
Quando eu estivesse grávida, tudo seria maravilhoso, ele me encheria de mimos, presentes, beijos e atenções. Quando, porém, o bebê nascesse ele nem perceberia a minha existência. E eu não agüentaria isso.
Eu não agüentaria o fato de ter que dividir o amor dele com mais alguém.
Ninguém.
Ao primeiro minuto depois do meio dia eu já havia ligado umas quinhentas e vinte vezes para o celular dele que, como de costume, estava fora de área. Saí do café enfurecida, com algumas lágrimas no rosto rubro de ódio, trocando as pernas rápida e desengonçadamente.
Abri minha bolsinha de mão e alcancei a caixa de comprimidos de prata. Num ímpeto violentíssimo, tomei quatro comprimidos. Aquilo não foi o suficiente para me matar – eu não daria a ele esse gosto -, até porque não era a intenção.
Apenas enlouqueci. Eu não sei se esse efeito é comum. Mas, de fato, comigo aconteceu.
Algumas horas passaram-se. Eu, trancada em um banheiro do vestiário do clube. Completamente fora de mim. Não que eu dentro de mim fosse qualquer coisa melhor. Vestida de noiva. Batidas desesperadas à porta. Surrealmente fortes. Um pouco mais fortes e a quebrariam.
- É você? Abra!
- Os meninos. Você precisa arranjar lírios.
- Como? Abra a porta!
- Lírios. Não se esqueça, é muito importante.
- Do que você está falando? Está maluca?
- São parte fundamental do casamento! E você se atrasou por quê?
- Casamento? Ora, pois...
- Pois, pois, pois, pois, pois! Estou cansada, vou dormir. Dorme, neném do meu coração. Eu gosto de ninar a mim mesma. Você poderia fazer isso às vezes.
- Mas do que é que...
- Querido, me escute. Os meninos. Os meninos serão lindos. Mas não antes dos lírios.
- Meu Deus! Alguém socorra! Alguém, aqui, ajuda! A mulher está completamente louca.
- Olha só como é engraçado. Tudo – eu disse t u d o -, tudo poderia ser evitado, caso você tivesse chegado ao meio dia. Mas do que um meio dia é capaz, han?
- Eu cheguei apenas dez minutos atrasado!
- Você não ia vir. Você só veio porque descobriu que eu tinha fugido para Cuba.
- Cuba? Ai, minha santa...
- E o casamento?
- Bem, eu não sei, estou muito confuso, você quer se casar?
- Ah, se quero! E então eu não te amo mais do que tudo na minha vidinha?
- Então, tudo bem. Mas antes saia daí.
- Mas antes os lírios! Traga-os até mim. Eu não poderei oficializar o casório até que tenha em mãos os meus lindos lírios. Mas não podem ser lindos demais. Tem que ser apenas bem bonitos. Porque se lindos, ofuscarão a beleza dos meninos.
- E que meninos são esses? Você não quer abrir...?
- Os nossos filhos, ora, que meninos!
- Jura? Você, meu amor, você fala sério?
- Falo transparente! Quero te dar lindos dois.
- Ah, mas como isso é maravilhoso! É a mulher da minha vida! Vamos ser felizes para sempre, meu amor. Agora é hora de sair daí, que eu não me agüento de felicidade!
- Vá buscar os meus lírios.
Ele partiu em busca de lírios, pois havia enfim compreendido que de lá eu não sairia nem à força, a menos que me dessem os meus lírios. Obsessão besta de quem está ou é doido da cabeça. Ele queria os filhos, o casamento. Ele queria a mim. Queria nada! Tudo mentira bem contada! A mim ele só enganara, como sempre. Desonrando horários, atrasando-se. Atrasava-se mais do que à compromissos. Atrasava-se à minha vida. Se ele pensava que eu seria dele como um escravo é de seu senhor de engenho, como um cão é de seu dono, ele muito se enganava. Ah, mas muito! Eu nunca mais iria vê-lo, e já o tinha em mente. Eu não queria mais saber de nós. Que fôssemos para o inferno, nós! Saí correndo desenfreada daquele banheiro para qualquer lugar tido como longe.
Sumi. Ele queria os filhos, o casamento, não queria? Chegasse ao meio dia.
Se chama Bolo de noiva ou O atrasado.
Eu gostaria que ele assumisse uma posição digna pelo menos uma vez na vida. Que assumisse um compromisso e que honrasse com ele. Que. Que. Coisa mesmo de homem, sabe?
Ele não conseguiria.
Marcamos no café.
- Me espere no café anexo ao Clube Militar, minha querida.
- Espero, mas a que horas?
- Não sei.
- Quer que então eu chegue pela manhã e te espere o dia todo?
Ele não era possível. O tom aqui seria sarcástico, não fosse a minha real submissão desesperada.
- Ao meio dia está bom?
Ao meio dia estaria ótimo, caso ele tivesse aparecido ao meio dia.
Ele sempre quis ter filhos.
Eu nunca quis ter filhos.
Filhos para nós representariam um enorme problema.
Quando eu estivesse grávida, tudo seria maravilhoso, ele me encheria de mimos, presentes, beijos e atenções. Quando, porém, o bebê nascesse ele nem perceberia a minha existência. E eu não agüentaria isso.
Eu não agüentaria o fato de ter que dividir o amor dele com mais alguém.
Ninguém.
Ao primeiro minuto depois do meio dia eu já havia ligado umas quinhentas e vinte vezes para o celular dele que, como de costume, estava fora de área. Saí do café enfurecida, com algumas lágrimas no rosto rubro de ódio, trocando as pernas rápida e desengonçadamente.
Abri minha bolsinha de mão e alcancei a caixa de comprimidos de prata. Num ímpeto violentíssimo, tomei quatro comprimidos. Aquilo não foi o suficiente para me matar – eu não daria a ele esse gosto -, até porque não era a intenção.
Apenas enlouqueci. Eu não sei se esse efeito é comum. Mas, de fato, comigo aconteceu.
Algumas horas passaram-se. Eu, trancada em um banheiro do vestiário do clube. Completamente fora de mim. Não que eu dentro de mim fosse qualquer coisa melhor. Vestida de noiva. Batidas desesperadas à porta. Surrealmente fortes. Um pouco mais fortes e a quebrariam.
- É você? Abra!
- Os meninos. Você precisa arranjar lírios.
- Como? Abra a porta!
- Lírios. Não se esqueça, é muito importante.
- Do que você está falando? Está maluca?
- São parte fundamental do casamento! E você se atrasou por quê?
- Casamento? Ora, pois...
- Pois, pois, pois, pois, pois! Estou cansada, vou dormir. Dorme, neném do meu coração. Eu gosto de ninar a mim mesma. Você poderia fazer isso às vezes.
- Mas do que é que...
- Querido, me escute. Os meninos. Os meninos serão lindos. Mas não antes dos lírios.
- Meu Deus! Alguém socorra! Alguém, aqui, ajuda! A mulher está completamente louca.
- Olha só como é engraçado. Tudo – eu disse t u d o -, tudo poderia ser evitado, caso você tivesse chegado ao meio dia. Mas do que um meio dia é capaz, han?
- Eu cheguei apenas dez minutos atrasado!
- Você não ia vir. Você só veio porque descobriu que eu tinha fugido para Cuba.
- Cuba? Ai, minha santa...
- E o casamento?
- Bem, eu não sei, estou muito confuso, você quer se casar?
- Ah, se quero! E então eu não te amo mais do que tudo na minha vidinha?
- Então, tudo bem. Mas antes saia daí.
- Mas antes os lírios! Traga-os até mim. Eu não poderei oficializar o casório até que tenha em mãos os meus lindos lírios. Mas não podem ser lindos demais. Tem que ser apenas bem bonitos. Porque se lindos, ofuscarão a beleza dos meninos.
- E que meninos são esses? Você não quer abrir...?
- Os nossos filhos, ora, que meninos!
- Jura? Você, meu amor, você fala sério?
- Falo transparente! Quero te dar lindos dois.
- Ah, mas como isso é maravilhoso! É a mulher da minha vida! Vamos ser felizes para sempre, meu amor. Agora é hora de sair daí, que eu não me agüento de felicidade!
- Vá buscar os meus lírios.
Ele partiu em busca de lírios, pois havia enfim compreendido que de lá eu não sairia nem à força, a menos que me dessem os meus lírios. Obsessão besta de quem está ou é doido da cabeça. Ele queria os filhos, o casamento. Ele queria a mim. Queria nada! Tudo mentira bem contada! A mim ele só enganara, como sempre. Desonrando horários, atrasando-se. Atrasava-se mais do que à compromissos. Atrasava-se à minha vida. Se ele pensava que eu seria dele como um escravo é de seu senhor de engenho, como um cão é de seu dono, ele muito se enganava. Ah, mas muito! Eu nunca mais iria vê-lo, e já o tinha em mente. Eu não queria mais saber de nós. Que fôssemos para o inferno, nós! Saí correndo desenfreada daquele banheiro para qualquer lugar tido como longe.
Sumi. Ele queria os filhos, o casamento, não queria? Chegasse ao meio dia.
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